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Mon bloc perso.
TRAJECTOIRE DE MAURO VALENTE

Je suis né à l’année de 1967, à la ville de Rio de Janeiro, quand j’ai reçu le nom de Mauro Brito da Silva.
En 1991, j’ai reçu le diplôme de la Faculdade de Letras da UFRJ, référent au cours de Portugais-Litté ratures.
Je m’exprime à travers de plusieurs arts: Littérature, Arts Plastiques, Danse e Thêatre. J’utilize tout le pouvoir des symboles et des mythes pour intégrer, dans mes oeuvres, les divers aspects de l’être humain et aussi les arts les uns avec les autres.
J’ai commencé à écrire poésies à cause d’ inspirations subites. Aux cours d’oficine littéraire, j’ai appris à mieux contrôler le processus criatif. Mes poèmes ont été déjà exposés et publiés, à cause de recompenses que j’ai reçu et de ma propre initiave.
J’ai presenté mes essais littéraires deux fois, pour être invité. Une fois pendant un congrès organisé par la Faculté de Lettres de la UFRJ.
J’ai appris à faire collages en 1982, au Colégio de Aplicação da UFRJ. En 1992, j’ai suivi un cours de collage, quand j’ai été éleve de Monica Barki. Dès 1991 jusqu’aujourd’h ui, à propos de cet art , j’ai dejà réalisé six expositions individuelles et trois collectives . J’ai exposé deux fois aux galeries du SESC, à Friburgo et à Tijuca.
Origam i j’appris à faire avec les programmes enfantins, que j’ai assiste à la télévision. J’ai amélioré ma technique comme autodidacte et au cours que j’ai suivi au Centre d’Artes Calouste Gulbenkian, em 1999, dont le professeur a été Mirian Nigri, membre du grupe Origami Rio. À ce même année, j’ai participé d’une exposition collective, où j’ai exposé mes origamis.
Le Tablado m’a enseigné à ëtre acteur, grâce aux trois cours que j’ai suivi dans cette institution, em 1985 et 1986: improvisation, interprétation et expression corporellle. Le professeur d’improvisation à été Ricardo Kosowski. À l’année de 1995, j’ai été membre du grupo Fazendo Arte, travaillant comme chanteur au choral et avec le théâtre enfantin, comme acteur et faisant les scénarios.
L’o bjectif de mon projet d’enquête a été démontrer les différentes relations entre les fous et les mythes, dans la fiction brésilienne. Je l’ai realisé entre 1990 et 1991. Je suis financé par le CNPq et orienté par le professeur-doct eur Wellington de Almeida Santos.
Intégr ant les arts, les uns aux autres, j’ai déjà realisé: deux expositions de poèmes et collages; une oficine par suggérer aux professeurs técniques d’interaction entre Litterature et Arts Plastiques.; huit performances, alliant Poésie, Théâtre et Arts Plastiques, une d’entre elles au théâtre Vila Lobos.
Em octobre 2000 j’a participé de la pièce “Os Gregos”, crée par la Companhia de Teatro Medieval. J’ai actué improvisant avec l’actrice Márcia Frederico, par qui j’ai été choisi pour avoir répondu correctement ses demandes sur les mythes grecs.
En 1995 j’ai lu le livre “Tarô Mitológico”, que m’a aidé à commencer ma carrière de tarologue. Dès le commencement, j’ai fait un grand succse, parce que je me suis revélé très habile en donner des conseiiles pratiques, utiles a résoudre les problèmes de mes clients et en faire prévisitions, qui ont été vraiment realisées.
À l’année 2000 j’ai realisé deux songes, que j’ai déjà eu longtemps. Le premier a été le lancement de “Coração Coringa”, mon premier livre de poésies, où les phases de la lune symbolisent beaucoup d’étapes et plusieurs types de relations amoureuses. À ce livre, je m’ai dédié pendant dix ans, m’ocupant de tous les détails: écrire les poèmes, créer les illustrations, faire la révision, le relier, le vendre. Ce livre a été mon second grand succès, comprové par la vente de beaucoup d’exemplaires.

Le second rêve que j’ai realisé, l’anné 2000, a été la création de “Poesia Energética” mon premier site pour l’internet . Dans ce site, je presente la proposition de la totalité de mon oeuvre poétique, qui est la d’englober tous les aspects de la conduite humaine. Les poèmes sont classifiés par catégories, symbolisées par les quatre éléments et illustrés para mes collages, inspirés sur le Taro.
Depuis 1999, quand je m’ai decidé concentrer toutes mes énergies et tous mes talents dans une seule série de libres, je me lui dédie. Mon objectif est prouver à tous que, dans chaque personne, existent les moyens pour réussir à améliorer la qualité de vie. Et ce sont faciles à découvrir, à partir d’un chose simple et accessible à tous: les proverbes brésiliens. Ça est possible parce que ces proverbes possèdent les mêmes symboles que le taro, par exemple: la Voiture, la Lune et le Monde. À la version en français de ce série, que je suis en train de traduir du portugais, j’ai donné le titre de “Taro Brésil.
J’ai choisi Mauro Valente pour être mon nom artistique, parce que c’est le que mieux me caractérise, dans trajectoire de vie. Dans ma constante lute pour exercer mes droits, comme citoyen; pour réaliser me rêves, comme artiste; pour superer mes limites, comme être humain.
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Publié le 12/06/2008 à 2:18:02 AM
Par Mauro Valente
1)   A FÁBRICA DE FABRÍCIO (28/07/1986) 

Sou Fabrício dos mortos e das flores,

Das sepulturas, dos jazigos,

Dos sepulcros, das criptas,

Da grama, da semente,

Do jardim, das árvores,

Das plantas.

Sou Fabrico das Cruzes.

Elas são meu emprego.

Sou Fabrício,

Sem vícios, sem chouriço, sem feitiço,

Para todo serviço.

Para todo emprego.

Sou Fabrício do Santo Sossego.

Comecei meu ofício

Ainda na tenra idade,

Com as bênçãos

De Padre Cícero.

Enterrei meus pais adotivos,

No meio do jardim da cidade.

Sou Fabrico do Santo Ofício.

Fui feito pra isso.

Não nego fogo,

Não aturo rebuliço.

Quero ver os mortos

Descansando felizes.

Faço a mudança

De todo os ossos

Para o Santo Sossego.

Sou Fabrício

Das covas rasas,

Das raízes profundas,

Das Sempre-Vivas

Das Quase-Moribundas,

Sou Fabrício do Santo Sossego.

Dizem que sou louco,

Por eu ter um gosto assim:

Gostar mais dos mortos

Que de mim.

Sou Fabrico do Cemitério.

Sou pedreiro nas horas vagas.

Com as mãos, nas pedras,

Deixo meu coração gravado.

Sou um valente negro.

Sou Fabrício

Do enterro, do carneiro,

Das rosas, dos ossos.

Sou Fabrício do Santo Sossego.

2) A LEI DE LEILA (26/04/1994)

Leila

respeita

as Leis

da Melodia.

Leila ergue

com seus versos

a ponte

a pauta da Fantasia.

Leila mistura

lágrimas

com nuvens

e refloresta

o deserto

com as pétalas

de sua Poesia.

3) APUROS DE APOLO (21/04/1987) 

Faleci

em teus braços

meu amor.

Subi

até os Astros

do Senhor.

Adormecido,

igual Jacinto,

nos braços de Apolo

protegido

ainda me sinto

por teus olhos.

4) AURORA INFINITA  

Aurora, o sol desponta no céu.

Agora, teu beijo tem sabor de mel.

Lá fora, o tempo passa e eu não sinto.

E eu flutuo infinito.

Aurora, teu beijo desponta no céu.

Agora, o sol tem sabor de mel.

Lá fora, eu flutuo e não sinto.

E o tempo passa no infinito.

Aurora, eu desponto no céu.

Agora, o tempo tem sabor de mel.

Lá fora, teu beijo aflora como absinto.

E o sol flutua no infinito.

Aurora, o sol flutua e é absinto.

Agora, teu beijo tem o sabor

de como eu me sinto.

Lá fora, o tempo passa céu no mel.

E eu flutuo no teu abismo.

Aurora, o sol desponta no mel.

Agora, o tempo tenta parar e eu evito.

Lá fora eu flutuo, ao sabor de infinito

Do teu beijo, ávido labirinto.

5) CASAL DE ANJOS (02/10/1987) 


Casal de Anjos

Passeia pelo Céu.

Em meio a seus passos.

o Verbo floresceu.

6) DESESPERENÇA (30/04/1987)  


Sei que não chegarei

Á luz no fim do túnel.

Sei que morrerei

No meio do caminho.

Então por que insistir ?

Que energia

Me obriga a prosseguir ?

Talvez a esperança

De que a luz

Se compadeça de mim

Se eu morrer

Antes de alcançá-la.

Esperança estúpida,

Luz não sente nada.

7) ENIGMA (01/06/1989)  


No centro

de uma floresta

encantada

habita um ser

iluminado.

O caro Leitor

por acaso adivinha

qual é a luz nítida

que ao ser ilumina ?

Será a luz infantil

das entrelinhas?

Será a luz madura

da Lua ?

Será a infernal

Luz Solar ?

Será o edênico

Não-Luar ?

Não,

O Não-Luar,

o Sol, a Lua

e as entrelinhas

não são

a origem

da luz

que faz brilhar

o ser que

o centro

da floresta plena

de encantamentos

habita.

O Sol, as entrelinhas,

a Lua e o Não-Luar

brilham menos

que o ser iluminado

que habita no centro

da floresta encantada.

Caro Leitor,

Já te disse muito,

Porém não

Te disse

Tudo.

Direi então:

A floresta encantada

É o meu coração.

O que não disse,

Direi agora:

O ser

que ilumina

e anima

a floresta encantada

com cristais mágicos

no centro

de sua alma,

tem mais luz

que a Lua,

o Sol,

o Não-Luar

e as entrelinhas

todos juntos,

é um bruxo lindo.

Qual é o seu nome ?

Eu ainda não disse ?

O nome dele

é ....

DIONÍSIO.

8) FÁBRICA FÁLICA (04/05/1990)  

Na fábrica

Os operários fabricam

- produção em série –

televisões

com controle remoto.

Na loja

Os operários são fabricados

- produção em série –

pelo controle remoto

das televisões.

9) LAMENTO DE FÊMEA (19/06/1985) 

Estou condenada

A viver de restos

Pelo resto da vida.

Sou um mero brinquedo.

Um objeto

Nas mãos abjetas

Do Rei dos animais.

Tenho que

Me contentar

Com seus

Fugazes carinhos

Que ele

Só me faz

Quando

Eu não quero.

10) LEILA LILÁS (15/06/1994)   

Leila Lilás...

Dedilhas

Cachoeiras siderais...

Inspiras Incensos

ao Pai

de Todas as Galáxias...

Leila, leiga ?

Não...

Ensinas

Com a maestria

A vivenciar

A essência

Dos cristais.

Leila, és de Lei.

Lei do Amor,

Lei da Paz.

Fazes da vida

Constelação

De Poesia,

Para todos

Poderem lê-la

E vivê-la

Com o brilho

Das Estrelas.

11) LIÇÃO DE MÃE 

Ser Mãe

Não é arrancar

As asas

De seus filhos.

Ser Mãe

É podá-las

Com Amor

Para poderem,

Livres dos excessos,

Voar mais longe

E com mais segurança

Rumo ao Sucesso.

12) LOUCA VERDE AZULADA

A Louca Verde Azulada

Não a quero estátua

Em foto amarelada.

A quero

Em seu habitat,

Viajando plácida

Em sua barca transparente

Entre Céu e Terra

Em eterna Primavera.

E quando

Chegar á noite

Quero ver a Lua

Embalá-lo na barcaça

De seu regaço.

Quero ver

A Louca

Virar Pomba,

Lançar as sementes

Da árvore sagrada.

A Louca Enluarada,

Não quero comportada

Pelos diques

Da lucidez.

Não a quero dissecada

Pelo bisturi

Da realidade.

A quero

transbordando,

transportando

todo o Mundo

para a Terra

da Felicidade.

13) LOUCO (PRIMEIRO)   


Sou um louco admirável.

Acredito em tudo que digo,

Mesmo que seja verdade.

14) LÚDICA DÚVIDA (21/07/1985)  


Não sei se é sonho

Ou se é piração.

Baixou a prestação

Do quilo dói riso,

No País da Inflação.

E no fundo do mar

Tem árvore de camarão,

Ou pé de lagosta,

Ou ostra de montão.

Quem quiser,

O só mergulhar

E colher.

Ainda é grátis,

(até quando ?)

Nesta terra

Onde Capital

É Deus

É Patrão.

15) MANIFESTO DA SUCATÉARTE

Quem cata

Sucata

Se cata.

Se cura

Com cultura.

Abandona

A absurda luta

Contra

Os fantasmas

Do passado

E as fantasias

Do futuro.

Quem faz

Da sucata

Arte,

Se ata.

Convida

A dissolver

As correntes

Do ódio

E se libertar

Na aliança

Da comunhão.

Porém

Não se atreva

O artista da sucata

A crer-se estrela,

Estátua com status

De divina perfeição.

Faça,

Com humildade

Da sua arte

Exemplo

Para toda

A humanidade.

Para as pessoas

Não se permitirem

Virar robôs de latão

Nas podres

mãos do poder.

Para fazerem

A grande magia

A Alquimia Interior.

Transformarem

O ódio

Sua ínfima

sucata íntima

No ouro

De mais

puro kilate

na mais sublime

de todas Artes:

AMOR

16) MADRE AUGUSTA (27/02/1985)     

Um ano mais jovem

Porém, um ano

Mais experiente.

O tempo segue

Sempre em frente

Imponente,

Na suas

Eternas rondas.

E hoje

Para Maria

Se inicia

Mais uma

Primavera.

Ela que tem

A energia

Das crianças,

A responsabilidade

Dos adultos

E a sabedoria

Dos idosos.

Àquela que me aturou

Por toda a eternidade,

Desejo um passeio

Pelo jardins

Mais que formosos

Da Felicidade.

17) MARINHOS FELINOS (04/06/1994) 

Mar ronronando...

Rondando...

Marinhos felinos...

Cupidos Vampiros...

Capa de Luz...

Capuz capaz de seduzir

A virgem Amélia...

A fim de espalhar

Sangue e ambrosia

Pela pele marinha...

Amélia semeia

Vermelhas colméias,

Espelhos dela...

Colméias rainhas,

Linhas de Poesia

Nas páginas marinhas...

Os pescadores

Pensam seres Sereias...

Unem-se à teias...

Não se perdem...

Os machos

Se acham...

Se desmancham

Para integrar

A Alquimia

Da Felina

Poesia Marinha...

18) MONSTROS ELETRÔNICOS (08/02/1987) 

Os monstros

Com seus

Olhos eletrônicos

Vasculham

As cavernas

Atrás

Do meu cadáver.

Jamais

Irão achá-lo.

Sou o

Líder deles.

Se depender

De mim,

Minha carne divina

Será semente

Para fazer

Brotar

A sublime

Àrvore da Profecia.

19) NARCISA (02/06/1985)   

País lendário

Sem tempo, sem calendário.

Habita a bela Narcisa,

Filha de Mar e Lua

Seu castelo de nuvens

Áureas e rubras.

Paira sobre

as humanas lutas

e as humanas paixões.

Quanto mais

De outro alguém

Precisa

Tanto mais

De outro alguém

Prescinde.

Dragões ecoam raios.

Seus fiéis lacraios

Afastam os deuses

E os príncipes encantados

E os piratas, todos

Os que ousarem

Sonhar em aproximar-se

Da fortaleza.

Contempla

Sua rara beleza

Nos cristalinos espelhos

Espalhados pelo

Seu império

Inteiro.

Seus puros, seus raros

Traços cristalinos

Conhecem a seda

Apenas de suas

Sedentas mãos

Céu e Terra

Tudo se transfigura.

Porém eterna

É a corpórea alvura

É a anímica bravura

De Narcisa.

Oferece seus encantos

A si mesma.

Em seus rituais

De prazer infinito.

Deita-se sobre

Sua nuvem de seda,

Espalha

Aroma de lírios

Em seus alvíssimos

Altivos seios

Alisa-os

Da base

Ao ápice.

Seus dedos

Ágeis gazelas

Deslizam sobre

Seu ventre

Até as negras

Pétalas de

Seu sexo.

Carícias dedilham

As pétalas

Animam a ária

Das delícias.

Narcisa

É envolvida

Em divina

Aura de luz.

Aves cantam

Acompanham

A cadência.

As flores

Explodem

Suas irisadas

Essências.

Deslumbram-se

Homens

E deuses

Com os

argênteos orgasmos

De Narcisa,

Solitária

Sublime

Ninfa.

20) MEUS DIAS DE FELICIDADE (05/06/1987)


Nos meus

dias de felicidade,

as Luzes auxiliavam-me

sempre que as Trevas

ameaçavam invadir

a minha vida.

Hoje as Trevas

São minhas aliadas

E as Luzes

São minhas inimigas.

Nos meus

dias de felicidade,

As serpentes

Ensinaram-se em sonhos.

A plantar diamantes.

A Lua os regava

Com seus raios.

Nasciam pomares

De Lótus.

Nos meus

dias de felicidade,

Cantar era

fazer oferendas

No Templo da Poesia,

Para agradecer

A ausência de doenças

Em meu corpo

E em minh’alma.

Viver era

um simples poema,

nos meus

dias de felicidade.

21) O CAMINHO DA POESIA (27/11/1987)   

É estranho

O caminho

Para a Poesia.

Os atalhos atrasam,

Afastam-me

Do alvo.

Meus versos,

Há anos,

São flechas

Sem arcos.

22) O CORAL DE CAROLINA   


O coral de Carolina

Apavora

A cor da Alegria.

Seu cantochão cinza

Corrói, no carnaval,

As colunas da Euforia.

É o Rei Momo,

Vendo

Esvaírem-se

As calorias

Da sua Coroa

Em eterna

Quarta-feira

De cinzas,

Amordaça,

Amaldiçoa

O Coral

Das Coroas

Carolíngeas.

23) OPÇÃO (08/10/1994)  


Não o corpo dócil,

Fóssil cravado na Cruz.

Sim os corpos unidos,

Ungidos pelo suor.

Não a Coroa

De espinhos

Espremendo a mente,

Destruindo a semente

Do ente:

Mártir inútil.

Sim o encontro

Ardente das vísceras,

Libertas pela Corrente

Da Vida.

Regando todos

Os recantos

De dois seres.

Celebrando

A comunhão do Amor,

Exemplo de Vida.


24) OSMAR (04/06/1987)   

Maravilhoso Mar

Só vós podeis aproximar

Só vós podeis amarrar

Meu corpo

Meu espírito

E minha alma.

Os estilhaços

De mim

Que o tempo

Fez explodir

E espalhar

Pela face

Da Terra.

Abominável Mar,

Só vós podeis matar

Minha ânsia

De me diluir

No amargo

Lago lunar

Da minha

Paixão

Por minha.

Infinito Mar

Fazei-me, enfim,

Habitar o plácido

Palácio de Marfim

Que ocultas

Dentro

De mim.

Amarelo Mar

Mãe insuportável.

A Lua vira

Medalha enferrujada

Amarrada e arrastada

Pelo Cometa Infernal

Quando inaugurais

Na face da Terra,

Com vossa

Água-corrente

Vosso Amarelo Império.

25) PLÊIADE (14/11/1985)  

Navega mares lunares,

Vago Comandante em voga.

Vai perscrutando os lares

Aonde sua onda logra.

Catoptromante bruxa,

Personagem popular.

Mostra as máculas ocultas

Na alma polida do lar.

Vela pelas veleidades,

Volúvel ser no poder.

Saranda sem ter vaidade,

Mas com todo prazer.

26) PREÇO DA PAZ
 

Se a Paz

Te apraz,

Por que compras

A Paz

Com aliança de papel ?

Se à Paz

És Fiel,

por que

te lanças,

em missões e mísseis,

para converter

outra nação

à tua

pacífica religião ?

Se é um Ser

Feito de Paz,

Por que fazes,

Então ?

Do Holocausto

O Espetáculo

Da tua Redenção ?


27) PROTESTO   

Não me apraz

Ver meus

Versos decifrados

Por olhos fechados,

Incapazes de amar.

Melhor seria

Não tê-los escrito,

a vê-los lidos

por pessoas

de pedra.

Coração de pedra,

Alma tão dura.
Publié le 12/06/2008 à 4:02:27 AM
Par Mauro Valente

1) RUÍNA NACIONAL (04/12/1988) 

Ouviram do Ipiranga

As margens flácidas,

De um povo irado

O brado retumbante,

Pois do céu

Da idolatrada pátria

Foi roubado

O sol da liberdade

Neste instante.

Porém o pendão da desigualdade

Conseguiram em nós plantar

Com braço forte

Em nosso peito,

ó liberdade.

Contra o fado cruel

Ninguém mais pode.

À Pátria amada,

Espoliada,

Salvem, salvem.

Brasil, país imenso, solo riquíssimo.

Na miséria o povo ainda padece.

E o brasileiro ouro, risonho e límpido,

Em estrangeiros cofres resplandece.

Gigante, onde está a tua grandeza ?

Onde o sol do nossos povo ?

Quando poderemos cantar-te

Erguida a cabeça,

O Hino Nacional de novo ?

Terra roubada

Por outras mil

És tu, Brasil,

O Pátria desarmada.

Se o pendão da escravidão,

Conseguiram em nós plantar

Com braço forte.

Em teu seio, ó ser vil,

Renascerá a liberdade

Mesmo adubada

Pelo sangue da ignorância.

2) SER MÃE (1ª VERSÃO)  

Ser Mãe

É ter a sutileza

Das asas do Sonho.

Ser Mãe

É ter o aroma ambíguo

Da Poesia em Flor.

Ser Mãe

É ter a firmeza

Das pedras do Amor.

Ser Mãe

É ter o ritmo

O pêndulo íntimo

Das ondas da Vida.

Ser Mãe

É saber não afogar

Seus filhos

Com afagos

Mesmo sendo

Mar do Amor.

Ser Mãe

É ser

acima de tudo

Mulher.


3) SONHO VIAJANTE  

Por onde andou meu sonho,

A memória me foge.

Terras estranhas por certo viu.

Onde coisas fantásticas acontecem.

Como estrelas que estremecem

Só de ver o fausto

Com que a Lua se veste.

Onde serpentes se arrependem

Das mortes que causaram.

Onde Amazonas se casaram

Com Faunos

Que há anos persegues.

Onde não podem morar

Máscaras de nenhuma espécie.

Onde cada um aparece

Como realmente é.

Onde as auroras são claras.

O caminho de volta

Quase de mim se esquece,

Ao ver como fosforece

A Rainha Profana,

A mulher sagrada

Chamada Cleópatra.

Finda a aventura,

Ao lar que vazio

Viu ficar.

Meu sonho retorna.

Ao retornar,

Acrescenta ao que havia

Mais do que poderiam

Juntas criar

Loucura e Magia.

4) SUBVERSÃO (24/10/1999)     

Em meio à via

Havia uma lápide

A se depilar.

Uma lápide

A se depilar

Em meio à via

Havia.

Este evento

É vento,

As Retinas

Retintas

De rotina

Altera,

Alerta.

Jamais

Me olvidarei

Deste vento,

Evento singular.

Perante

A lápide

A se depilar,

Em meio à via

Havia eu.

Eu a via.

Eu,

A via.


5) TUPÃ (05/05/1990)  

Tupã,

Meu bem-amado,

Tua flecha incandescente

Fecunda minhas palavras.

Áridas escravas

Dos dicionários

Tornam-se mágicas,

Grávidas de Poesia.

6) À BEIRA DO VAZIO (08/12/1987)    

À beira do vazio

Um casal conversa.

Vazia conversa

Numa tarde toda tecida

Com macios fios de nada.


7) A BRUXA FADA (04/04/1988)  

Minha bruxa encantada

Por ti fui encontrado

No meio da selva de pedra.

Minha bruxa-fada

Anula minhas perdas.

Me livra da farda

Anula meu fardo.

Arranca minhas pedras.

Minha bruxa encantada,

Os gnomos, os duendes,

As salamandras, as serpentes,

Te acompanham.

Me deixa beber

Do elixir

Da tua alegria,

Para existir

Na minha vida

A magia

De ser feliz.

Me deixa habitar

Os teus sonhos,

Para visitar

Os recantos

Encantados

Dos contos

De fadas.

Minha bruxa enluarada,

A Mãe Terra,

A Mãe d’Água

Te geraram.

Meus segredos, meus mistérios,

Tu desvendas

Com um apenas

De teus versos.

Coloriste minha vida

Com a brisa

Dos teus olhos

E o cinza

E seu reinado

Hoje hiberna

Nas cavernas

do passado.

Mihha bruxa,

Teu ar de fada

Vem da Lua,

Vem da tua

Natureza

De ser ente

Que enxerga

Nas serpentes

A beleza

Que há

Nas sementes,

Nas ervas.

   

8) A TORTURA DA POESIA (27/07/1988)  


A Poesia me captura

Com seus vesgos

Olhos de visgo.

A Poesia me tortura,

Torce minhas veias.

Explora meus infernos.

Vertido para o vértice,

Ápice de dois desejos,

Onde me vejo

Múltiplo.

Múltiplas fontes

Para preencher

O infinito-escasso.

Espaço aveludado

Da página.

9) ABRI MEU BAÚ (29/03/1987) 

Abri meu baú

Tirei coisa por coisa

Que no fundo havia

E dei à luz

à luz do dia.

Um livro de Cabala

Com meu rosto

Na capa

Cabelos em ouro

Olhos em estrela.

Um par de chifres

Feito em

Pedra da Lua.

10) ABRISMO (18/07/1986) 

À beira do abismo

Me lembro

Do bacilo do facismo

Se alastrando

Pelo mundo civilizado.

O abismo

E sua milenar

Sombra oracular

Miram-me pela

Ocular bola

De coral

Da Cabala.

O abismo

Me convida

A delsizar

E escapar

Com vida

do labirinto

de meus

desejos

insaciados.

Do abismo.

A garganta

É arisca.

Árdua a descida.

Quem ousa

E se arrisca

Pode se considerar

Herói consagrado

E santo canonizado.

O abismo

É traiçoeiro.

Enrola

Em sua teia

O mais experiente

Alpioneiro.

No abismo

É certa a morte

E sem ressurreição.

Já foi usada

Como mote

Por poetas

Ancestrais

De nossos

Ancestrais.

11) ALGOZ AUDAZ (18/05/1986)

Tudo que faço

Te deixa com um pé atrás

Me vences pelo cansaço.

Me convences com tua fala falaz.

Tu escolhes

A quem devo amar.

Você me encolhe.

Isso não me apraz.

Tudo bem, tanto faz.

Mas deixa

Minhas madeixas

Em paz.

Minha moda tu fazes.

Me incomodas, me fazes mal.

Tu me queres normal.

Prendes meu navio no cais.

Ès meu Rei e teu arauto.

Queres me afogar com um rato.

És meu algoz mais eficaz.

Traças a linha

E me ensinas

A andar

Apenas nela.

Se te desafio

Me defenestras.

Isso não se faz.

Tudo bem, tanto faz.

Mas deixa

Minhas madeixas

Em paz.

12)
AMOROSA ESTRELA (24/09/1984)   

Uma mulher caminhando por um campo azul, encontra uma borboleta, toca nela e voa. Voa até bem alto e depois desce fazendo piruetas. Pousa, caminha entre as árvores, lentamente. Ouve trombetas. Muitas pessoas se aproximam. Por entre elas vem dançando príncipe. Eles se encontram e dançam felizes. De repente, o príncipe sai correndo, a mulher o persegue. Cada vez mais rápida é a perseguição. Eles param e se abraçam. Ele a leva pela mão. Chegam ao castelo do príncipe. A mulher deslumbra-se. Entram. O príncipe a apresenta a seus criados. Súbito, sai correndo. Nova perseguição. Mulher pergunta aos criados se o viram, eles mentem e negam tê-lo visto. Ela sai do castelo. Dança pelo bosque, de quando em quando pára e olha dentro dos arbustos e atrás das árvores. Se alegra, pensa que tudo não passa de uma brincadeira, para acender e ascender a sua paixão. Ouve trombetas. É o príncipe que se aproxima com seu séquito. Mulher sorri para ele. Este passa e aprece ignorar sua presença. Ela vai atrás. Embrenha-se, desesperada, pelo meio da floresta, cada mais depressa. Não descobre onde está o príncipe, porém descore-se vestida de princesa.Segue o séquito, ouve sinos. Pessoas passam vestidas de amarelo, dançando. Lentamente, o séquito a abandona e segue os sinos. Ela corre até ao castelo. Revira tudo, procurando por ele. O encontra em um dos mil quartos, estirado no chão. Atordoada, tenta reanimá-lo. Tenta ouvir o coração, porém este também não lhe diz nada. Percebe que está morto. Serena, vai até à janela. Colhe as borboletas que vicejam ao redor do castelo. Planta as borboletas no coração do príncipe. Deita-se ao seu lado, na cama, o envolve com seu corpo e beija sua boca. As almas de ambos saem, voando e dançando, pelo salão. As almas brilham cada vez até serem uma só estrela,. A Amorosa Estrela sai pela janela. A Amorosa Estrela dança eterna pelo infinito espaço-tempo.

13) ANALORGIAS (29/06/1986)  

Nossa cópula

É uma peça

Em três atos.

Nosso diálogo

É o roteiro

De teatro-absurdo.

Nosso caso

É uma cena

De cinema mudo.

Os rótulos

Jogamos pro alto

Pelas rótulas

Do auto.

Nossa libido

É nossa química

Sublimação.

Nosso olhar

É o melhor

Catalisador que há.

Nosso orgasmo

É um complexo

Ativado.

Você nada de créu,

Eu nado de costas.

Eu sou o Anjo Mau.

Eu sou Gal Costa.

Nossas carícias

São pincéis de luz

Pintando nossas imagens

No infinito.

Nosso calor

É clorofila,

Traduz em cósmica energia

Nossos corpos materiais.

Nosso humor

É húmus.

Nosso alimento

Para o amor.

Você me à vista.

Eu te a prazo.

Nossas canção

É cadeira cativa

Para a peleja:

Bem X Mal.

Nossa cor

É um rock

Rolando arte de cor.

Nosso quarto

É quartzo

É quark

É um foco

De tetos-fátuos

Buracos negros

In lôco.

Eu te conquisto,

Você me com testa.

14) ÁRVORE VITAL E LETAL (23/02/1986) 

Os rijos troncos rubros.

È como se o sangue da Terra

Jorrasse, transbordando

Das veias

E coagula-se em pleno ar.

Nos ramos se entrelaçam

Serpentes tecendo

Teias verdes

cobrindo o ar

de paradisíaca renda.

Entre as árvores de sangue

Ainda pode-se ouvir

O cantar das serpentes,

Atraindo os artistas.

São vampiras, inspiram

Destilam rimas

Para alimentar

A Terra

De Energia.

Os ovos

Das vampiras verdes

São dourados,

Esféricos e macios.

São sóis

Jogando no solo

Para ferir

A Terra

E fazer nascer

Novas serpentes.

15) AS FOLHAS (14/02/1987)  

As folhas

Dão sombra

Pra rolha

Na dobra

Do galho

Todo torto

Pelos anos

Ao sol

O sol

Se espalha

Nas muralhas

E só

tão só

tão fraco

tão simples

o nó

da gravata

na armada

da fragata

a naufragada

se agarra

ao tronco

que ronco

do mar

pelo ar

se vai

o cais

é mais

que um soldado

todo fardado

dos pés

à cabeça

me esqueça

fui !

16) BROTA DO CHÃO


Brota do chão

Do meu apartamento

Fazendo um estrondo

Tremendo, hediondo

Uma montanha de gelo,

Tendo por dentro

Uma árvore de aroma

E insenso perfume.

Que emoção !

De mil em anos

Meu admirador secreto

Me envia um presente.

Que surpresa !

É sempre o mesmo !

17) CARRO CARLOS (14/11/1997)    


Carlos,

carretel

Acarreta

Liberta as mentes

Ao tecer

Nas retinas

A teia

Da sabedoria

Terna lanterna

Ilumina

Os íntimos

tímidos

Labirintos

Da História.

Sua magia

De maestro

Convida

Ao passeio

Pela melodia

Da vida.

Sintoniza

Nossas energias

De Noel,

O Aquiles

De Vila Isabel.

18) CAVERNAS DE GELO (21/02/1987)     


Cavernas de gelo

Casernas com trigo

Artigos de inverno

Cadernos vermelhos

Jasmins no jazigo

Espinhos em espelhos

Cinco alegros

Cachimbos pretos

Alheios ao limbo

Arreios ou estribos

Acho a estribeira

Almejo carinhos

Encarno velhos marinhos

Ali no fim da linha

Sublima-se o linho.

Em perfeito desalinho.

Me desafio

Me desfio.

19) CÉLULA = CIDADE (20/05/1985)


Existem mais relações entre a vaidade celular e vida urbana do que pode supor nossa vã Biologia.


Membrana citoplasmática = Fronteiras entre cidades:

Limite entre a célula e o mundo exterior. Por vezes várias células estão tão unidas, que é impossível diferenciar as membranas umas das outras. Com as cidades acontece a mesma coisa.


Núcleo celular = Centro da cidade.

Às vezes, os núcleos vão para a periferia. Acontece no corpo humano (megacélulas) e nos EUA (megalópoles). Em abos os casos não é muito recomendável passar pelo centro em nenhum hora do dia.


Citoplasma = Perímetro urbano


Movimentos citoplasmáticos = Ônibus

Há muitas voltas desnecessárias. Nem Deus sabe quando chegarão ao seu destino.


Retículos endoplasmáticos = Metrô

Transporte rápido, seguro e eficiente.


Complexo de Golgi = Porto

As proteínas são devidamente empacotadas e embarcadas. Vão para outras células ou tecidos. Assim como dos portos as mercadorias vão para outras cidades, ou estados ou países.


Mitocôndria = Usina Hidrelétrica.

20) CHUVA FAZ TROVA (07/08/1998) 

A chuva enferruja

O tráfego

Encolhe

Ruas

E

Pessoas.

21) CINE SAUDADE (23/07/1998)

Saudade faz

Dos meus olhos

Um cinema.

Cada cena

Se multiplica

Nas telas

Das lágrimas.

22) CINE SOLIDÃO   

És a estrela

Dos filme que

Nas telas

Das lágrimas

Do Cine Solidão.

23) COME(N)TA (11/01/1998)

a gente comenta

a meta

do cometa

de mental

metal.

24) CORAL DE PIANOS (25/05/1988)     

Coral de pianos...

Círios cândidos...

Lírios-anjos..

Nasci...

Gastei

Meu dia

Caçando pianos.

Pianos não havia.

Havia uma cigana

A minha espera.

Levou-me levitando

Nos lírios do hábito

Ao país sacrossanto

Onde lei

Dos Sábios Arcanos

Impera.

25) DELÍRIOS POÉTICOS SEM MALDADE (30/09/1987)


Rever Walkiria

Euforia suprema

Eterno dia

Em meu ecossistema

Walkirísima

Bebida ilícita

Inspira Iansã

E ao águia igniza-se

Rever Walkiria

Nesta foto Kirlian

Recria

A Alquimia

Wlakimística

Cientista onírica

Mefista

Manifesta

Walkiria

Não gostarias

De ser a minha

Vampira ?

26) DISPERSÃO (20/02/1986)    


Afiada faca

Afaga formas perfeitas

Fere fundo

Efetua famosos feitos

Defunteia facínoras

Defende indefesas fadas

Ceifa café

Freqüenta festas famosas

Fomenta hafalgesias

Grinha falsos hierofantes

Afidalga mafiosos

Satisfaz famintos antropófagos

Sacia vampiresca sede sangunária

Faz cafrices

Roufenhas barisferas afina

Afia ninfas

Linfas ofitas oficializa

Azafama fatigados

Transfigura feias faces

Sacrifica feras

Aflige janicéfalos falazes

Favorece Morfeu

Com os favos

Que come

De Orfeu

27) DOM QUEIXOTE (14/08/1997)   

Por tanto amor,

Tanta obsessão,

Minha vida

Fez-se em sina.

Por fora

Ou pelo avesso

Já me desconheço

Eu, caçador

de moinho ?

Preso a poemas,

A eternas lendas

Que não falam

De mim.

Dessa tal...

Dulcinéia...

E eu,

Caçador de moinho ?

Lá no fundo

De mim

Achei, enfim

A Fada Sininho.

Louco ? Jamais.

Eu sou Galahad.

Eu ?

Caçador de moinho ?

28) DULCINÉIA PARANÓIA (22/11/1986)


Sou uma Dulcinéia

Em perigo

Não há por acaso

Nenhum Dom

Quixote desocupado

Para me salvar ?

Ele tem chamas nos olhos

Ele tem icebergs nas mãos

Da sua boca

Sai uma língua

Fina e comprida

Com duas agulhas

Na ponta

A cor dele

É amarelo-visgo

O corpo dele

Só vai

Até a cintura.

Os seus olhos

Fazem correr lava

Pelas minhas veias.

Suas mãos

Ferem o chão.

Uma espessa

Camada de gelo

Avança

Em minha direção.

Dou um doce

A quem me socorrer

Só sé for agora.

É inútil

Querer fugir.

Virei iceberg.

Agora

Sua língua

De cobra

Aproxima-se

De mim.

Não posso desmaiar.

Não há

Entre os leitores

Nenhum hipnotizador

Para me manter

Desperta ?

Só me faltava

Essa.

Cada fagulha

Se cravou

Num seio meu

Ele suga

Todo meu leite

É asqueroso

eu achar

tudo delicioso.

A porta

Do recinto

Vem abaixo !

É o Quixote

Dos meus sonhos !

Chegou atrasado,

Meu amor...

Meu coração

Já pertence

Ao meu ódio

Ao Esfinge.

29) É DOLOROSA (17/04/1987)  


É dolorosa

A nossa separação

Mas sua duração

Eu te juro

Não há de ser eterna.

A distância

É só geográfica

Nos Átomos do Cosmos

Nossos Espíritos

Estão unidos

Com laços de ouro.

A Mãe Terra

Nos uniu para sempre

Com fez

Com as serpentes

Do caduceu.

30) ERA DE NOITE E CHOVIA MUITO (16/02/1987)  


Era de noite e chovia muito

de vez em quando relampejava

eu estava jantando sozinho

Foi então que ouvi uma voz cantar

A música não se parecia

Com nenhuma de que me recordasse

A língua não se parecia

Com nenhuma língua humana

E o mais estranho

Era que quem cantava

Era eu.

31) ERA TAL A SINTONIA ENTRE NÓS (16/02/1987)

Era tal

a sintonia entre nós.

Que nós

não comunicávamos

Através de palavras

Os pensamentos

Transitavam

Em estado

Bruto

Entre

Nossos cérebros

Se os

Escrevo aqui

E para torná-los

Um pouco

Mais legíveis

Ao meu Ego.

32) EXPERIÊNCIA (26/02/1986)     


Quando me encontro

No deserto da solidão

Cada grão de areia

É uma desilusão

Olhando em volta vejo

Uma bela imagem,

Ouço o canto das sereias

Mas é uma miragem.

Sigo minha viagem

Rumo ao nada,

Sei que é longa e feia

esta estrada.

Alguns urubus

Voam em volta,

Me querem como ceia.

Me entrego sem revolta.

Com suas bicadas vigorosas

Tiram a parte podre

Que me permeia,

Deixando a mais saborosa.

Depois de tal experiência,

Saio do deserto da tristeza,

Vi pro mar da existência.

Vou pro mar do coração,

Onde cada gota

É pleno de beleza,

É bela canção.

33) FAÇO CÍRCULOS NA AREIA (29/01/1986) 

Faço círculos

Na areia

No litoral

Como parte do rio.

São símbolos milenares

Da sideral

Ordem de Arantes.

Disfarço vícios.

34) FOSTE FONTES (28/10/1985) 

Foste proposta inconseqüente

Resposta pronta e permanente

Afronta assaz ardente

Falaz paixão

Foste imposto sobressalente

Rosto fosco e contundente

Tosco gesto indecente

Presto arpão

Foste póstuma parente

Hóstia hostil e crisol previdente

Borbulhante pulsação

Foste encosto insistente

Aposto artista ao concorrente

Sizígia bela e nitente

Aquarela amarelo-limão

Foste forca consistente

Força motriz surpreendente

Retriz vacilante ascendente

Lancinante prisão

Foste passeio fremente

Asseio torto e consciente

Mosto no mosteiro saliente

Sorrateiro vilão.

Foste mistério insolvente

Minério lento poluente

Lente radiante na corrente

Verdejante visão

Foste fonte forte

Ponte para o porte

Rara réstia de retórica

Peste prestes à posse

Seresta salmão

35) IMERSO NA INÉRCIA (15/01/1998)    

E meus poemas

Quantos assassinarei

Por inércia

Por inépcia ? 

36) ME(E)DITO (11/12/1986)


Quando medito

Me edito.

Quando menstruo

Me instruo.

37) O FILME DAS ESTRELAS

As pétalas das estrelas

Projetam filmes na Lua.

38) PARIS (10/07/1985) 


Paris

Pariste a Luz.

39) PASSAMORTE   

A morte

É meu passaporte

Para o Inferno.

40) PEDRAS PERNICIOSAS 

Algemas de gemas

Preciosas e perniciosas

Em pernas ociosas.

41) SUA MÃO SINISTRA. (24/02/1987)    

Sua mão sinistra

Ministra

Com clamor

Aos aflitos

O filtro

Do Amor.

42) SÃO FANTASMAS CONFUSOS (12/08/1987)   

São fantasmas confusos

São espectros difusos

São elétricos parafusos

São vampiras

Dominadas

Pela lascívia

43) TENHO A ALMA SUBMERSA (14/06/1988)   

Tenho a alma submersa

Nos grandes sonhos do passado

Em carnais desejos de realização

Minh’alma está ébria de mim.

Publié le 18/06/2008 à 12:34:05 AM
Par Mauro Valente
1) GENI, DE BONECA A MULHER (08/06/1986)   

Era raspadinha e vibrante

E com rabiola latejante,

A mulher embonecada.

Era tão perfeita

aquela amante

Que ele agarrou-a

Num instante.

Penetrou-lhe

na privada.

A boneca era Geni.

Tão perfeita era Geni.

É feita para estuprar.

Não é feita parir.

É boa de arrombar.

Divina Geni.

Mas um dia deu defeito.

Exigiu seus direitos

De assistente sexual.

Exigiu seguro-insanidade,

Carteira assinada

E liberdade

Irrestrita e total.

Ta mudada essa Geni.

Não é a merma Geni.

Das estrofe anterior.

Ta pensando

Que é mulher.

Ta agindo

Igual mulher.

É o fim

Do nosso amor.

2) HEROÍNA (09/07/1986)   

Do cigarro

Sai a fumaça

A fumaça se enrosca

Na antena do carro

Que passa

Agora é bandeirola

Trêmula inteira

Incauta passageira

Do auto

O motorista

Tenta arrancá-la

A bandeira se esfuma

E escorrega pro asfalto

Pro alto do arranha-céu

Agora é fino dossel

Não passa muito tempo

Sopra tremendo vento

E lá se vai

A fumaça

Outra vez

Entra pela janela

Do apartamento

Daquela que já casou

Com mais de cem

Mas essa fumaça

Não respeita ninguém

Entra nos sonhos

Da bela adormecida

E faz um carnaval

Esse gás fugaz

Lá já não está mais

Pelas ondas

Do rádio

Amado amador

Da donzela

3) MISCELÂNEA, A POESIA (05/11/1986)  

Entre as grades do azul

Prendi meu coração

Mas terras da perdição

Entre fileiras de bambus

Cujas tulipas ébrias

Enlaçadas com caracóis de Sol

Humanizadas pela Senhora

Das Mil Mãos Célticas

Que seguravam as nuvens da chuva

Enviada pelo Arcanjo

Para libertar o Ano

Das garras da negra viúva

Ela abraça a amplitude

Variante da simplicidade

Com a divindade

De sofrer por suas virtudes

Estas vicejam à sorrelfa

Sob as vistas dos profetas

Sacrificando as festas

De Tarzã com Eva

Vampiros brindam com pus

As chagas de cristo

Confuso avestruz

Na saia que visto

Sobre os seios nus de Vênus

Cujo crista

Desperta desejos incontroláveis

Nos homens de sexos maleáveis

É um prazer mórbido

Essa tal de prostituta

Muito mais que sórdido

E ainda se disputa

E derreta o sólido

Suspiro da cicuta

Amarelecido pelo esquecimento

Filho da feiras do convento

Pinto caretas em nanquim

Expressão do silvo

Difamante do mocassim

Que me dá alívio

Sem exigir tamborim

Que suporte o crivo

Da ira dos frívolos

Na fila dos frígidos

Ao soar o telefone

Corra e corte o fio

Umbilical da fome

Alucinada no cio

Visite o lobisomem

Tente dar um tiro

Nas sífilis

Que retiro

Das Amarílis

Anuncio os cliques

Dos sorriso Karynos

Pour cinq ou six briques

Quero os óculos alcalinos

Sobre o pavimento

No decorrer dos hinos

Crio compartimentos

Para conter taras

E demais condimentos

Analiso facas raras

Bem como torcicolos

Adquiridos em mansardas

Preparo pólipos

Ao molho de chiliques

Por preços mórbidos

Foram feitas plásticas

Nas suásticas

Ficaram tão elásticas

Que nem sequer sorriem

Entregaram de bandeja

Deliciosas cerejas

Com quem solfeja

No trono do harém

Queimaram os queijos

Dos azuis azulejos

Foi a maldição

Que rogaram os bruxos

Em carrões de luxo

Com sofisticações

Feriu-se com ferro em brasa

Em sua própria casa

A Cabala

E veio socorrê-la

Com muito susto

A Língua, a Fala

E uma insolente abelha

Que quase sorriu de susto

Ao ver a égua

Trepando com um muro

Num quarto escuro

A milhões de léguas

Não exitou no delito

Aquele cantor esquisito

Com defeito no braço

Presença sem brilho

nem nos olhos

nem nos lábios

pendurada no tombadilho

da nau de Logos

sócio dos espíritos sensatos

porém conscientes

de que são dementes

e míseros ratos

não me falta inspiração

para dar ração

aos desfavorecidos

também sou religioso

e creio no Deus

dos malditos

Todo Poderoso

Ele me deu

A riqueza

Para que a guardasse comigo

E para que desse aos mendigos

Toneladas de vileza

Montado em seu cavalo-submarino

Navega um grão-vizinho

E seu amante

Entre alentos e afagos

No Morro dos Cataventos Sussurrantes

Ao longe num gesto largo

Uma foice de cimento

Com sutis

Acenos convida os dois

Para morrerem depois

Na ponta dos fuzis

No fundo da algibeira

Carrego rotineiras

Massagens

Enquanto medito

Me perco no embalo

Das mixagens

Se encontro Carlitos

Corro para alçá-lo

Ao altar

Que as Titãs

Ergueram nas manhãs

De Gibraltar

4) MONSTRUOSIDADES (03/05/1986) 

Garbosos e bravios guerreiros

Todos de bom tamanho

Temiam os terríveis monstros

Dos mares d’antanho

Vírus, viris, virulentos

Bem gordos

Uns pacíficos outros violentos

Menores apenas que os engodos

Seus pais e parceiros

Curioso é o encontro

Ente eles e as naus

No furioso Helesponto

Não eram de alma maus

Olhavam secamente

Para os navegantes curiosos

Raros e ofegantes

Mas ficavam furiosos

Se molestados

Pelos petardos

Das embarcações

Alguns entoavam canções

Como as sereias

Outros entornavam vagalhões

Como as baleias

Menos horrendos

Apenas que seus nomes

Vivem morrendo

De fome

O monstro negro que carregava

As selavas sem folhas nas costas

Não era suficiente proteção

Contra as investidas

Do que moravam nas encostas

Dos montes marinhos

Nem dos monstros vizinhos

Com os quais faziam apostas

Para ver quem devorava

Mais selvagens de uma só vez

O monstro-bispo rezava uma oração

Abençoando os oponentes

Se aqui demonstro

Exemplos de monstros

Em tempos de curiosidade

E templos de posições invertidas

É porque os contemplo

Em toda sua variedade

no completo complexo

de sua sociedade

este texto é reflexo

de anos de estudo

intenso e perplexo

eis tudo

5) NÃOFRAGAR   

Farol na proa idade nau

Nau cega, sem velas

Luís, o Nevoeiro

Onde o está o Sinal ?

Luís, és Pioneiro.

Nada efêmero

Naufraga, Luís de Pinho...

Deflagra teu Destino

Naufragar é imperativo

6) NATURA (26/05/1986) 

Flores nos ramos azuis

Amores vibrantes de luz

Aromas viajantes.

Aves pelos ares...

Mares da seiva...

Salvam a selva

Das trevas...

Girafas gigantes

Giram e geram

Gerânios

E girassóis...

Estrelas de neve

Argentina

Nas nuvens de fina

Renda voam...

Pinheiros

Pioneiros

Prisioneiros

Das sementes

Das serpentes

Fôrmas de vento

Inventam

Formosas glosas

De perfeito feitio

Nas rochas

Lírios líricos,

Empíricos no empíreo

No delírio colérico.

È de admirar

A face louca da lua

A se mirar

No largo lago

Do luar.

Folhas de fibra

Desfilam á desfiada

Por desfiladeiros

E nas folias florestais

Desafiam formidáveis

Formigas famintas.

7) NUNCA DANTES 

Por cavernas

Nunca dantes descobertas

Por barracos

Nunca dantes demolidos

Por escravos

Nunca dantes alforriados

Por pedaços

Nunca dantes confessados

Por totens

Nunca dantes adorados e erguidos

Por empresários

Nunca dantes falidos

Por super-heróis

Nunca dantes vencidos

Por operários

Nunca dantes construídos

Por presidiários

Nunca dantes atrevidos

Por fatos

Nunca dantes consumados

Por Cristos

Nunca dantes crucificados

Por Demônios

Nunca dantes exorcisados

Por portais

Nunca devassados

Dantes

8) NUVEM DE ME(N)TAL (08/01/1997)    

Acima

Da minha cabeça

Nuvem de metal

Carregada

De relatividade

Entrega

Um raio

De revolução

Para

Obscena,

A minha

Musa.

9) O ANÃO AMPLIDÃO 

Como humana ampulheta

Passeia o anão atleta

Pela areia da praia

Na ampulheta

A areia discreta

Viaja através

Do vértice

Estreito

Para marcar

A passagem

Do tempo

Para a morte

Quando o anão

Se exercita

Sem saber

Incita a inveja

Converte-se

Em tema

De todas

As conversas

Pergunta

Que ronda

Pela rodas

Da inveja:

Vejam

Como pode caber

Tanta energia

Onde pouco osso

Pouco músculo

não caberia ?

só pode ser

um robô

a inveja

cega a razão

ninguém percebe

que, se fosse robô

seria alto, bonito,

mas sem espírito

o anão

tem pouco

e corpo torto

mas espírito

enorme

ereto

quanto mais

o tempo passa

por seu corpo

pequenino

mais se expande

seu espírito

é por isso

que o anão

é ampulheta viva

é vivo exemplo

de ampulheta

invertida

10) O ESPÍRITO ESPERTO (05/01/1998)    

Mulher é superapaixonada pelo marido. Ambos são muito ricos. O marido de câncer. A mulher fica em estado de choque por algum tempo. Quando está restabelecendo, percebe que está se apaixonando pelo psicólogo que cuida dela. O tenta seduzi-la para botar a mão em sua fortuna. Ela não gosta do que está sentindo com relação ao psicólogo. Gasta parte de seu dinheiro e jóias para construir uma estátua de ouro do falecido. Faz um solene juramento para ele. Se for para a cama com outro homem, ante de ir derreterá a estátua e derramará o ouro no ma, pois não será mais digna de sua confiança e de seu amor. Um arqueólogo, amigo da família, decide entrar no corrida do ouro. Tenta convencer a viúva a doar a estátua para o museu que administra. O psicólogo sabe do juramento, mas o arqueólogo não. O arqueólogo conquista o amor da viúva, ao evitar que o psicólogo roube a estátua. A milionária tenta resistir, tenta saciar seus desejos com a estátua, mas não consegue. Na noite em que vai para a cama com o arqueólogo, ela revela o seu segredo.Começa o conflito interior: cumprir o juramento fazendo a estátua desaparecer, ou mantê-la intacta, cedendo à insistência do arqueólogo, que não se interessa pelo valor material, e sim pelo histórico. Mulher jura ao arqueólogo que vai fazer a doação, porém derrete a estátua. Ao acabar de jogar ouro no mar, o arqueólogo sai de seu esconderijo, irado, e a abandona. Mulher chora, pois perdeu os dois amores de sua vida e, também, parte de sua fortuna. Procura um médium espírita, para falar com seu marido. Quer saber se ele aceita que ela se case de novo. Médium, fingindo que o falecido fala através dele, diz a ela que só pode casar outra vez com um condição: vender a mansão e doar e doar todo o dinheiro para a ONG filantrópica do médium. Viúva acredita e segue fielmente as ordens do espírito de porco. O falecido passa a atormentar a o charlatão todas as noites, a noite inteira. Diz que só o deixará em paz se ele se casar com ela e, também, fizer um testamento para que ela herde todo o dinheiro que ele lhe roubou. Caso o espírita faça qualquer coisa, seja lá o que for, que a prejudique tal como matá-la ou alterar o testamento, o falecido voltará atacar. O médium diz a ela para dar a ela para dar mais dinheiro para a instituição, pois o falecido ainda não está convencido da sua sinceridade. Na mesma noite, o falecido, o falecido o visita e diz que esta é a sua última chance, ou o charlatão cumpre o que lhe foi ordenado, ou o falecido o fará se suicidar. O médium, julgando-se todo-poderoso, se recusa. O espírito hipnotiza o espúrio espírita hipócrita e o faz inalar uma overdose de incensos. O charlatão amanhece morto. Concentrando suas energias, o espírito de amor consegue encarnar no corpo do espírito de porco. Vai ver sua viúva. Ela: Meu amor, como eu gostaria de estar aí, no céu, você. Ele: Meu amor, vou fazer melhor. Vou renascer através de você. Espírito e sua esposa fazem amor, alucinadamente.

11) O LIVRO DA LIBIDO (1986)   

Vem cá meu livrinho,

Senta aqui comigo

Me ensina me explica

Como é que

Eu fico rica

Vem cá meu livrinho,

Agora estamos sozinhos

Me ensina os artifícios

Os segredos as malícias

Pra enriquecer sem esforço

Me diz que eu te ouço

Fala, mas baixo

Fala assim só pra mim

Me ensina os cambalachos

Vem cá meu livrinho,

Senta aqui comigo

Me ensina me explica

Como é que

Eu fico rica

Vem cá meu livrinho,

Agora estamos sozinhos

Me ensina o criem perfeito

Eu aprendo eu faço direito

Eu faço até faculdade

Maior que as dificuldades

É minha louca vontade

De nadar na grana da cidade

12) O OVO DE OVÍDIO  

O ovo de Ovídio

Ouve o vídeo

De Orfeu que sofreu

Com os Elfos de Morfeu

O ovo de Ovídio

E Orfeu sofreu

Ao ouvir o vídeo

Com os Elfos de Morfeu.

Ouve o vídeo

Dos Elfos de Morfeu

Orfeu e sofreu

Com o ovo de Ovídio

13) O QUE É ISSO ? (04/11/1986) 

Não é ave, não é avião.

Não é o Super-Homem.

Não é Confúcio, não é confissão.

Não é hecatombe.

Não é compra, não é compromisso.

Não é a pena isso.

Isso apenas é.

14) OSTRAS OUTRAS (16/02/1987)   

Me vejo em meio

A uma população

De ostras humanas.

15) PÂNTANO DO ESPANTO (26/02/1988)   

Nos espantamos

Nossos pântanos

São sombrios

Sons e brilhos

Forma banidos

Pelos bandidos

Decerto

Do árido

Deserto

Os ávidos

Vieram

É facílimo

Os fascínios

Voaram

Para longe

Da mente

Onde moram

A salvo

E alvos

Para sempre

16) POEMA DESPREZADO 

Minha donzela

Por que rasgas

Papel tão precioso ?

Por que esmagas

Com tanto asco e nojo,

Poema de amor

Tão belo ?

Pois um amo um pintor

Que me ama

Numa aquarela.

Que me afaga

Com cores ardentes.

Ele faz eu me ver

Como uma Cinderela.

Ele não rima

Meu nome belo

Com tagarela.

Ele sai e o deixa

Sozinho na sala.

El faz sua mala,

Troca seu amor

Por ódio

Vai até ela

E lhe fala

Vou matar-te

Vou jogar-te

Na vala

Dos versos

Brancos de

Tão podres

Ela gargalha

Ele a pega

Nos braços

A joga

Pela janela

Pobre moça

Tão bela...

Ela voa

Para longe

Bem longe

Livre, enfim,

Dos versos

Dele, cegos

17) POEMA DOS TRÊS PLANOS (05/01/1197)

1º PLANO:

Roda gigante...

Tábua oscilante...

Plano inclinado escorregadio...

Ponte de quadrados vazados...

Cubos amontoados

Para passar através...

Estacas com teias

De arame intercaladas...


2º PLANO:

Quase esqueço

E não escrevo

No quadro.

Veia da terra

Aberta na pedra

Se perde no horizonte.

Dois casebres

De olhos azuis.

Árvores de penas

Vivem nas margens

Dos riscos.


3º PLANO:

Três montanhas.

Outra calva e brisa,

Outra de perfil

E bigode viril,

Outra com peruca

Louca de pirilampos.

18) POLIPOÉTICA (10/05/1986) 

No porto

navios de afastando

versos brancos acenando

no pescoço

da Damas da Araras

colar de rimas raras

na guerra

com a paz dos estóicos

decassílabos heróicos

na fila de espera

do INAMPS, franzinos

alexandrinos

nos castelos assombrados

aprendem a ser bruxa

rimas esdrúxulas

nos sobrados

comem nas maiores vasilhas

as menores redondilhas

na porta da igreja

imploram por poucos cobres

rimas pobres

no Palácio da Inveja

não cessam intrigas

entre rimas ricas

a Bíblia já dizia:

no Paraíso das Alturas

só entram rima pura

na praça vazia

rimas femininas

amam rimas masculinas

na pele

abrem feridas profundas

rimas pontiagudas

nas orelhas

a comédia encontra entraves

nas rimas graves

ônibus parados

fazem zorras infernais

nas rimais finais

em quartos apertados

dormem apenas

rimas internas

nos planos projetados

a armadura completa

da poesia concreta

19) PRAZER DE MATAR (10/07/1985)  

Toda a cidade corre perigo quando quem,

acima de tudo, ama a vida,

descobre o indescritível prazer de matar.

20) PROCESSO DE ELIMINAÇÃO DA TUA PRESENÇA EM MIM (27/01/1987)  


Durante a noite

Lentamente

Tua carne e dissolve

No ácido da amnésia.

Entretanto

Ainda te espero

atento a teus passos

De morta-viva.

Introduzo um pinça

Em ouvido

E retiro

O fino fio

Da tu voz.

O Grande

Pássaro da Aurora

Já espalha

suas penas róseas

Pela minha memória,

Mas tua visão

Já se apagou

Dos meus olhos.

21)
Quartetos

O Puma

Pouco ocupa

Da riqueza

Móvel.

O Puma

Pouca ofusca

A pobreza

Imóvel.

22) QUERIA SER UM PERSONAGEM ÁRABE   

Queria ser das mil e uma noites árabes

Um personagem árabe

Com todo seu esplendor e encanto

Conhecer os quatros cantos

Das mil e uma noites árabes

Possuir o mais belo príncipe árabe

Possuir a beleza e poesia

Das mil e uma noites árabes

Ao invés de ser

Um mísero ingrediente árabe

De um reles pão-árabe

Cujo destino

É o intestino

De um clandestino

Americano

Numa história apócrifa

Das mil e uma noites árabes

23) QUERO QUE MINHA ARTE     

Quero que minha arte

seja bela o bastante,

para todo o mundo amar.

Mas, ao mesmo tempo,

Quero que minha arte

seja feia o bastante,

para ninguém no mundo imitar.

24) RAPSÓDIA (04/11/1986)   


1) ESCÂNDALO


Para os vândalos

O escândalo

É uma forma de amor

Nos seus ritos

Cada canção é um grito

De rubra cor


2) AMOR


A cor do amor é imprecisa

Sua mansão é uma canção rosada

Sua forma segue normas inusitadas

Seu grito gera conflitos em virgens narcisas

Seu sândalo é o escândalo


3) CANÇÃO


Numa canção posso ser Deus

Posso fazer da Terra um Paraíso

Posso pintar o Mundo da verde cor

Posso habitar nos filhos meus

Posso por um verde sorriso

De fresco odor

Em seus lábios e em seus dentes

Posso por um verde grito

Em suas gargantas

Posso tirar de suas mentes

E de seus corações os conflitos

O verde Amor de agiganta

Posso fazê-los habitar em vedes prados

Posso fazê-los segundo minha perfeita forma

E quando

Deles estiver cansado

À Terra devolver o que lhe pertence

Minha prole, ao ver-se nua

Se extermina em

grande hecatombe

De escândalo


4) COR


Se no meio da rua grito

Logos todos pra mim olhando estão

Se o céu fito

Logo todos pro firmamento

Voltam sua atenção

Se um quadro pinto

Logos todos questionam

A cor que vou usar

Se uma pedra esculpo

Logos todos perguntam

Que forma vou lhe dar

Se com alguém luto

Logos todos apostam

Que quem vai ganhar

Se assobio uma canção

Logos todos param

Para escutar

Se estendo a mão

Logos todos nela

Uma esmola

Vão jogar

Se considero

A inflação

Um escândalo

Logos todos comigo

Vão concordar

Se de costas ando

Logos todos

No hospício

Vão querer

Me trancafiar

Se faço amor

Na meio da rua

Logos todos

Plenos de inveja

Chamam a polícia

Pra me delatar

Porém se dou

Dinheiro gordo

Logos todos

Ficam mudos

Com ninguém

Vão comentar

Grana mole

Em cabeça dura

Tão tenta

Que não restará

Nem pensamento

Só amnésia


5) GRITO


Amor-Escândalo

É a melhor forma

De dar um grito

É silenciosa canção

É cor berrante e silente


6) FORMA


Forma, informa

Amor, clamor

Grito, agito

Canção, escanção

Cor, calor

Escândalo, cântaro

25) RELIGIÃO   


Conectar

Com néctar.

Unir

Não pela seita

Sim pela ceia.

26) ROMPER O TÊNUE LIMITE (28/09/1986)  


Romper o tênue limite

Entre a pura

Transcendência

Do ser

E a dura

Decadência

Do parecer

Ferver todo

esse acinte

na confusa

incandescência

da indolente criatura

de inocente figura

e elevada estatura

que é lavada

no riacho de Hipólita

e seu rancho

de hipócritas

com seu ranço

do monólito fatídico

de acre acrílico

decifrar os insondáveis

desígnios do coração

para os inalienáveis

e malignos mistérios

da oração

que preserva intactos

seus ministérios

cujo voto de Minerva

enerva até os pactos

dos cactos báquicos

com as elásticas

e lascivas fibras

das cativas firmas

fundadas pelas fricativas

e fundas redondilhas

de rodilhas

morrer de mal súbito

remar em dorsal decúbito

num barco dourado de júbillo

avariado em pleno púlpito

avaliado com pesos múltiplos

manuseados pelos mesmos pupilos

acusados de serem túrgidos

na presença dos raios fúlgidos

fugidos dos hinos estúpidos

dos lacaios úmidos

lacrados em balaios lúbricos

encarregados do logro lúdico,

jogo do súdito

do jogral lúcido

sujo perante o público

pela escolta da escolha do último

dos mói-cana-da-índia que os barbitúricos

bárbaros ceifaram de modo único

sua rubra é rúbrica

seu muso é músico

seu tenor tem temor e teor telúrico

e canta num canto o Mercúrio pudico

enquanto este prossegue litúrgico

com o processo do possesso cirúrgico

confesso cupido túmido

27) ROSALINA   


Rosalina

Às vezes é delicada

Como as flores

De pano

Que ela faz.

Rosalina

Às vezes

Não é flor

Que se cheire

Nem que

Se coloque

Na lapela

Na capela

Rosalina

É remorso

E desengano

É estátua

Feita de espinhos

Rosalina

É rosa-overdose

Viciou-se

No viçoso aroma

De si mesma

28) SEDOSA NEBLINA (20/01/1998)   


Neblina de seda

Bélica beleza

Na cabeça

De Ismênia

Asas de noiva

Fértil farsa

Na casa

Da ingênua

Papoulas de sangue

Austero caos

No claustro

Da sereia

29) SELVAGENS SENHORITAS   


Selvagens senhoritas

Fáceis conquistas

Dóceis escravas

Maliciosas senhoras

Simples e discretas

Sem horas
sem idéias secretas

Com concretas palavras

30) SONHO DOS MEUS VERSOS (27/02/1986)   

A Olavo Bilac


O som das castanholas

São mil corações em fúria

Ágeis em mão em espanholas

Chamam-me para a luxúria

São mil corações em fúria

ainda ouço em meu peito

Chamam-me para a luxúria

Teus olhos negros e suspeitos

Ainda ouço em meu peito

Percorre todo o meu corpo

Teus olhos negros e suspeitos

Fazem o mesmo em tempo pouco

Percorre todo o meu corpo

O prazer que nele injetas

Fazem o mesmo em tempo pouco

O veneno de indígenas setas

O prazer que nele injetas

Meu ser envolve e entorpece

O veneno de indígenas setas

A mesma coisa acontece

Meu ser envolve e entorpece

E empalidece e revolve

A mesma coisa acontece

Com projétil de um revólver

E empalidece e revolve

E devolve à vida

Com projétil de um revólver

Não acontece coisa parecida

E devolve à vida

Mais forte e digno

Não acontece coisa parecida

Com pessoas de outros signos

Mais forte e digno

De te possuir

Com pessoas de outros signos

Não posso ir

De te possuir

É chegada a hora

Não posso ir

Antes do raiar da aurora

É chegada a hora

Com amor fazemos o truque perfeito

Antes do raiar da aurora

De dois corpos um só é feito

Com amor fazemos o truque perfeito

Estreito laço nos une

De dois corpos um só é feito

Alumiados pelo lunar lume

Estreito laço nos une

Laço estreito filigranado

Alumiados pelo lunar lume

Auxiliado por seres alados

Laço estreito filigranado

Lutando embora

Auxiliado por seres alados

Não escapa das garras da Aurora

Lutando embora

O laço é desatado

Não escapa das garras da Aurora

De fio em fio é desfiado

Lutando embora

O laço é desatado

Não escapa das garras da Aurora

De fio em fio é desfiado

O laço é desatado

Falece a força tão imune

De fio em fio é desfiado

O que nos une

Falece a força tão imune

Torna-se duo o antes uno

O que nos une

É destruído por Saturno

Torna-se duo o antes uno

Sem ti me despedaço

É destruído por Saturno

O sonho de nossos astros

Sem ti me despedaço

O som das castanholas

O sonho de nossos astros

É ágil em mãos espanholas


31) SURREAL (11/01/1998)   


Computador fuma

E se esfuma

É dono

De um banco

De dados viciados

Seu operador

Foi operado

Com um dado

No peito.

32) TE AFOGUEI EM MEUS DESEJOS (12/08/1987) 

Te afoguei

No Oceano

Do meu Desejo

Teu cadáver ainda quente

Flutua entre geleiras

Ouço tua voz

Entre as Estrelas

Desde o dia

Em que te deixei

Falando sozinho

E fui fazer

Meu mapa astral
Publié le 19/06/2008 à 7:09:05 AM
Par Mauro Valente
1) TESSELA   

Era uma vez um tagarote

Ele era tafulo

De uma tágide

Que lhe fazia tagatés

Com um tagante

União sem tálamo

Moravam num taipal

Quando se encontrava

Numa tebaida

Retirava o tafúlio

E bebia

De uma só talagada

A tafiá

Que comprara

Com um tael

Seu tesouro

Era guardado

Por um talambur

Pregava

O talante livre

Não tolerava

O tairocar

Dos portugueses

Residentes na cobertura

Do edifício ao lado

Ia pro trabalho

De taioba

Sempre que encontrava

As tajãs

Que tentavam

Entrar-lhe na taipa

Isto às vezes

Lhe custava

Algumas textilhas

Com sua tágide

todavia ele

taimado como o Taneco

sempre a convencia

do contrário

ele tomava tenência

e ambos

voltavam às boas

afinal foram talhados

um para o outro

pelo Artesão Universal

um de seus contribuintes

era uma gitana tarimbada

que jogava tato

trambiqueira

de mão lotada

outro era um tarega

que vendia tarecos

a prestação

cobrava taxas de juros

altíssimas

nosso protagonista

era amigo de um Tebas

este o iniciou

na tavolagem

comemoram da mesma tigela

no mesmo tinel

quando menores

depois foram

o tiloma

um do outro

O Tebas tornara-se

Um tigre

Contudo foi

Só o tagarote

Dar-lhe um talco

Comprado com um til

Pro litigante

Se derreter todo

E os dois saírem

Por aí

Dançando tango

O centro de

Nossas atenções

Mesmo não sendo adepto

Do tabagismo

Sofria de tafofobia

Que o torturou

No tronco

durante vinte anos

para penetrar

neste labirinto

é preciso mais

que o fio de Teseu

para matar este Minotauro

É necessário

Mais que uma

Afiada tabla

Para curá-lo

Numa teopia

Surgiu para ele

Uma Teoria

Trajando uma tordesilha

Bastou ter ela

Tocado-lhe a testa

Com uma tarja

De tafetá

Para ter ele

Curado de todo

Então

Soaram trombetas

Tonitroantes

Querubins

Tangiram cítaras

Íris coroou

Com seu arco

Aquele torrão

Assim termina

Este ato-átomo

Sobre o tablado

Da existência

Cerram-se as cortinas

Cegam-se os holofotes

Destrama-se

A tessitura

Do tagarete

Desta tessela

2) TODO SONHO (12/08/1987)   

O sonho

De todo Vampiro

É o sangue

Cintilante das Estrelas

Servido

Em taças vívidas

Talhadas

Em seus brilhos

Entrelaçadas

Toda Estrela sonha

Morar em

Sólido Castelo

No coração de fogo

Do Sol

3) UNICORNÍVOROS (12/01/1997)   
 

Existia, há séculos atrás, a Ilha dos Unicórnios. Todo anos, época do acasalamento, fazia-se uma cerimônia ritual. Durante a mesma, os casais retiravam seus chifres. (O macho retirava da fêmea e vice-versa .) Para não se ferirem durante o ato sexual e, também, para que novos chifres crescessem, como aliança entre ambos. Após o ritual, o mar levava os chifres e os colocava no Recife dos Chifres. O Recife era antenas para contactar os ancestrais e divindades. Quando os seres humanos descobriram a Ilha, o Recife já era um perigo para as embarcações, que nele encalhavam. Os piratas usavam os chifres do Recife para fazer espadas. Com o passar do tempo, desapareceram os piratas e apareceram os caçadores de tesouros. Estes se interessavam pelos chifres, pois a matéria de que eram feitas era única no mundo. Os caçadores de tesouros sonhavam a Ilha dos Unicórnios para ficarem milionários.


4) VAMPIRÓDIAS (PRIMEIRA PARTE) (16/10/1987)  


1

Ave Drácula

Ao que vais morder

Ser mordidas

Te saúdam


2

Quem nasceu

Pra mosquito

Nunca chega

A Vampiro

 


3

Vampiro

Vampiro meu

Existe pescoço

Mais saboroso

Que o meu ?


4

De gota em gota

O vampiro engorda

A vítima se esgota


5

Não deixe o sangue sumir

Não deixe o secar

Vampiro não vive sem sangue

Em sangue pra ele sugar


6

Sangue tem gosto de festa

É melhor e mal não faz

Ontem, hoje. sempre

Sangue, sangue, sangue

O rubro que satisfaz


7

Meu corpo amanheceu

Meio sem sangue

Sangue, sangue

Foi um vampiro

Que cravou os dentes em mim

E que me deixou assim


8

Yes nós tempo pescoço

Pescoço pra dar e vender

Pescoço vampiro

Tem muito sangue

E sangue é nutritivo

Engorda e faz crescer


9

Sangue é bom no almoço

Sangue é bom no jantar

Sangue é bom no café

Depois de deitar

Sangue é bom demais

E uma gotinha só já satisfaz


10

Eu sei que vou te sugar

Até o fim da tua vida

Eu te sugar

Não vais socorrida

Eu vou te sugar

Desesperadamente

E cada dente meu será

Pra te morder

Eu vou te sugar

Até o fim da tua vida

Eu te sugar

Eu sei que vou morder

Teu lindo pescoço

Eu vou morder

Sob a luz melíflua do luar

Ao embalo

dos teus gritos

de horror

eu sei que vais morrer

mas a desventura

efêmera vai ser

pois eterna vais viver

Vampira ao lado meu

Após o fim

da tua vida

5) GOTA SOLITÁRIA (08/01/1997)   


Cai de

Um olho solitário

Uma lírica lágrima

Talvez seja orvalho

Talvez seja chuva

A descer

Pela pele

Da viúva

O sol evapora

A lágrima solitária

Que vir nuvem

Talvez seja sonho

Talvez seja miragem

A aliviar

O peso

Do véu

Da nuvem solitária

Desce uma chuva

Feito de uma única

Gota.

Talvez seja íntima

Talvez seja vítima

Do penar altivo

Da cativa.

6) ISABEL   


Com o azo

De servir de chapéu,

Um disco voador raso

Pousa por acaso

Na cabeça de Isabel

E a faz sonhar com o Céu,

Onde repousa seu amoroso caso.

De nuvens é o tecido

Do vestido e da donzela.

Um anjo atrevido

O deu a ela.

Coisa que,

Aos seus ouvidos

Soou como

Proposta concreta

De união perpétua.

Os lábios de Isabel

Aceitou prontamente.

Mas as mãos de Gabriel

Tinham outras intenções

Queriam percorrer

As deliciosas regiões

Daquele corpo,

Sentir as ondulações,

As sensuais vibrações,

Os sutis sons

Que emanam

Do encontro

Entre a virginal pele

E o celestial tecido.

As sapatilhas

São um presente

Do espírito

De uma bailarina

De nome Catarina.

Amiga de Isabel

Desde a infância

Sua Mãe Astral.

A distância entre elas

Faz agora, de Isabel,

Uma solitária órfã.

Agora apenas seus pés

Sentem na pele

A lembrança

Da presença

De Catarina.

Isabel tem

Na mão esquerda

Uma bela e dourada flor.

O nome dela é Camélia.

Foi ex-colhida

Entre as da vereda

Mais oculta

Do vergel

De Isabel.

Eleita

Para ser

Confidente

Fiel.

Nossa amiga

É feita da matéria

Das quimeras

De Camélia.

7) ME PERDOA POR TUDO  


Me perdoa

Por tudo

O que eu disse

Me perdoa

Porque

Eu disse tudo

Sobre você.

Se eu falei

Tudo o que sabia

Sobre o teu passado

É porque

Eu não sabia

Que te perderia

Só ter contado.

8) MEDO (09/10/1987)  


Meu medo

Não dorme.

Nem me deixa

Dormir.

È só eu

Fechar os olhos

Para abrir-se

A Porta de Marfim

E milhões de Íncubos

Invadem

Minh’alma.

Morro de fome

Mas não como

Tenho medo
De que a morte

Tenha se alojado

Em meu prato.

9) MEDRUSA (11/08/1986)     


Meus pés sujos de lama e podridão

Mergulhados na imensidão

De lagos pútridos e fétidos

Da Transilvânia

Minhas mãos imundas pegajosas e letais

Revolvem as verves dos animais

Cheios de artimanhas

Meus olhos são pêndulos macabros

Percorrendo os alfarrábios

Acompanham meus lascivos lábios

Atrás de antigas poções

E de criações de leiximânias

Minhas unhas são punhais

Cujas lâminas se curvam para trás

Provocando fortes emoções

Nos meros mortais

Meus cabelo de serpentes é feito

produz um Medrusa efeito

morde o pescoço das virgens

que sentem vertigens

e se entregam ao torto e ao direito

meus pés são de cabra

cujas pisadas macabras

afugentam aldeias inteiras

minhas costas são lisas e escorregadias

as das rãs também são assim

servem de aeroporto

para traças cupins e pragas afins

10) METÁFORAS EUFÓRICAS (10/01/1987)  


Uma pessoa parindo em cada esquina,

São sementes explodindo em espetáculo divino.

Uma luz sorrindo em cada pirilampo,

São minúsculas esmeraldas voando pelo campo.

Um casal brindando em cada bar.

São sinetas vítreas repicando para celebrar,

Uma flor branca abrindo em cada galho,

São estrelas acordando graças ao orvalho.

Um canário cantando em cada fio telefônico,

São agulhas de tricô tecendo um mosaico sinfônico.

Um radar de luz em cada girassol,

São mandalas girando, seguindo o carro de Apolo.

Uma festa de cor em cada borboleta,

São caleidoscópios voando pelo planeta.

Um orgasmo espocando em cada fogo de artifício,

São gritos coloridos compondo murais de delírio.

Uma espessa malha de espinhos

Expandindo-se entre os espécimes

Da árvore escarlate,

São soldados soldados entre si,

Defendo a floresta encantando

Dos ataques.

Uma aranha tecendo em cada senhora,

São romances criadas por sábias escritoras.

Uma linda paisagem em cada garoa,

São quilômetros de querubins aspergindo com conta-gotas.

Uma mescla de Deus e Demônio em cada um de nós.

Somos a síntese de bem e mel, dentro e fora de nós.

11) MIL MENTIRAS (14/06/1988)   


Ela

mil vezes

Por hora

Eterno amor

Me prometia.

E eu

Mil vezes

Por dia

Me iludia.

12) PEDRAS PERNICIOSAS    

Algemas de gemas

Preciosas e perniciosas

Em pernas ociosas.


13) PRINCESA ACESA (22/05/1986)   

Mar de estrelas

Vermelhas

No alto da cabeça

Da Princesa

Do Fogo

Duas

Verdes Luas

No semblante

Brilhante

E macio

Caixa de

Músicas clássicas

Completa de

Maneira discreta

O quadro

Dona do jogo

Dama do Malogro

Idílio

Do caudilho

Habita o abismo

Entre a mente

E o evento

Habilita facínoras ao fascínio

Praticantes de assassínios

Medéia Meduséia

Atenas de antenas

Pitonisa que sintoniza

Oráculos miraculosos

Em sua

Cristalina pirâmide

Seu mister

É o mistério

Do mistral

Flor carnívora

Fascinante facínora

Mitomaníaca afrodisíaca

Leva à loucura

A quem vivem

No Cine Solidão

Sine cura