1) ..................................................... (23/11/1987)
Queria falar de estrelas.
Queria morrê-las todas.
Queria enforcá-las
no fio das minhas liras.
Então elas suicidar-me-iam
com seus raios abstrusos.
Só assim escreveria
o texto dos meus sonhos.
Título:
A NOITE DAS ESTRELAS MORTAS
O fosco corpo
morto das estrelas
mora na noite morna.
Os astrófilos todos
ficam atônitos.
Os fogos fátuos
nos olhos
do negro gato.
Seu brilho,
meu fascínio.
As almas
das estrelas
se amam.
Armam um ovo.
O ovo explode !
E entre fulgurâncias
harmônicas,
nasce a maravilhosa
Borboleta Cósmica !2) A BALEIA MIRA-SE NO SOL
A Baleia mira-se no Sol...
Vislumbra suas vísceras...
"Como são esmeraldinas...”
A Baleia no Espelho...
Irmã Gêmea de Vênus...
A Baleia contempla-se....
A Baleia é uma Deusa
e seu próprio templo...3) A CABEÇA DA DEUSA
A deusa cometeu o crime
De se apaixonar
Por um mortal
E para pagar
Por tal amor
Ela foi condenada
A perder sua cabeça
A cabeça do corpo
Foi separada
A cabeça pagou pelo crime
Que o corpo praticou
Eu fui cúmplice
Desse crime
Pois foi a mim
Que ela amou
Eu um simples mortal
Ela uma deusa qualquer
Seu mal
Foi querer
Ser minha mulher
A cabeça da deusa
Desceu o morro
Rolou pela cidade
Pela rua onde moro
Os olhos da deusa
Miraram-me frios
Desses mesmo olhos antes
De amor corriam rios
A boca da deusa me falou
Da imensa agonia
Dos lugares onde passou
A mesma boca que um dia
Em meus ouvidos sussurrou
Palavras de amor
A cabeça da deusa rolou
Por ruas, ruelas
Vilas, favelas
Nunca mais eu e ela
Percorri vários caminhos
Inveredei por mares de espinhos
A cabeça não é mais
De osso e carne
Nem de dor e desejo
A cabeça agora
É de mármore
É um dura lápide
Que não mais reage
Aos meus beijos
A cabeça da deusa
Atravessou países
Voltou às suas raízes
Já teve vários matizes
Agora é branca
Como a cera
Nela a apatia impera
Soube que acabou
Numa parede
O que eu não sabia
E que eu a encontraria
Na Casa da Poesia
4) A CADÊNCIA DA DECADÊNCIA (23/01/1987)
Quando as pedras
estão acesas,
perdem todas
as suas defesas.
Então, os castelos
ficam vulneráveis
e as Esfinges
são mais suaves.
Quando os Mitos
estão dormindo,
todos sabem
que se abrem
as portas do firmamento,
soltando as Estrelas.
E, quando se pode vê-las
mais de perto,
nota-se que muitas
foram mutiladas
pelas divinas espadas,
embebidas em cicuta.
Quando todas as teorias
caem por terra,
o Grande Sábio erra
pelas estrebarias
à procura do lugar
certo para se alojar,
ao lado dos bestiais
seres, seus iguais.
Quando termina o Sabá,
se recolhe Satanás
ao Inferno da Inquisição,
criado pelos padres cristãos.
As bruxas
viram corujas
e se escondem,
até segundo ordem.
Quando a Lua se suicida.
Quando as Mandalas se apagam.
Os opostos se afastam.
A Morte é melhor que a Vida.
5) A CAPA DA MOÇA (26/11/1985)
Não insista
em querer saber
quem é a moça
de fita na vista,
na capa da revista.
Seu moço,
Não adianta
fazer alvoroço.
A moça te fita.
Os cabelos
caindo em ondas
até o chão.
A fita de veludo
sobre a áurea cachoeira
enfeita e conquista.
Os belos lábios rubros,
fechados palácios,
escondem, plácidos,
o tapete escarlate
e os lustres de cristal.
Pescoço comprido,
pilar comprimido,
indecente,
sustenta o palacete.
Fina capa de seda
encapa e revela
o tesouro do olhar
embebido em madrepérola.
6) A CASA DE EUS (05/08/1987)
Naquela não morávamos nós.
Naquela casa moravam eus.
7) A ESTRELA E O FIDALGO (06/10/1984)
Amanhã não serei nada.
Hoje talvez seja algo.
Uma espada de um fidalgo,
ou uma estrela na madrugada.
Se entre corpos mortos cavalgo,
sou fidalgo de capa e espada.
Se só há vida em minha estrada,
sou estrela e pelo céu vago.
Se trago notícias do nada
e no nada nasço e me estrago,
sou estrela perdida na manhã raiada.
Mas se novas da vida trago,
e se a vida é minha boa fada,
moro em castelos e sou fidalgo.
8) A EXCELSA LUA EXALA 13/03/1988
A excelsa Lua exala
Seu Hálito, sua Essência.
O Poeta exalta
A Aura, a Refulgência
Que a Lua lhe ofereceu,
Com Cantos de rara beleza,
Superando assim Orfeu.
É áurea a Aura do Poeta,
Obra-Prima de Ourives,
Filha das quatro Matrizes
Esculpidas na Pedra
- Maciça Alma Lunar -
Pelo Vento Solar.
É mutante o Canto do Poeta.
Ora adora Apolo, ora o desafia.
Ora apura a lira, ora a desfia.
Ora é o Cristo, ora é a Besta.
Obscuro era o Poeta.
Antes da Aura
Ulcerar seus hábitos,
Antes do Hálito
Deixá-lo apto
A se manifestar.
9) A IDÉIA DE MEDEIA
Conheço teus versos, Medéia !
Conheço tua intenção !
Fazer uma tragédia
plena de Paixão !
Faço de teu sacrifício
minha obsessão !
Remédio pro meu vício
de sofrer em vão !
Nossa crise, nosso precipício,
nossa vertigem, início
de nossa comunhão !
Anjos ? Nem pensar !
Nosso Paraíso Lunar
É todo feito de Tentação !
10) A IRA IRÁ VENCER (22/10/1987)
Preso em retângulo verde
por uma Vontade
divina, sem piedade.
Fui feito oco,
para preencher
duas horas de ácido.
Já nasci gago
e meio aleijado
por absoluto descuido.
Graças a uma falha
de mira
escapei do lixo.
Como um ser
tão insensível,
tão egoista,
pode merecer
ser chamado
Poeta ?
11) A LATA DO LUTO (02/06/1994)
No ventre
o fruto indesejado.
Na mente
o lavrador odiado.
Na bagagem
muito amor enlatado.
Na passagem
a garantia de chegar
ao lugar errado.
A pele da Terra
é um enferrujado
luto fechado
feito de ácida
mágoa coagulada.
Quando a Terra anda,
é o enterro
cadenciado
do feto embalsamado
pelas lágrimas de veneno
escondidas dentro
de sua esquisita
armadura de chita.
12) À LUA, NOSSA MÃE (30/12/1987)
Ela deu um grito
pleno de sangue
e nos pariu a todos.
Nós, seres tão diferentes
como grãos de areia,
só iguais na aparência.
Ela cantou encantamentos
plenos de chama viva
e ardemos em seu ventre.
Conhecemos a Luz
graças ao grito
e ao canto.
Seu pranto,
chuva diamantina,
nos ilumina,
nos anima.
Conhecemos a Vida
graças ao pranto,
ao grito
e ao canto.
Ela nos alimentou
com sua sabedoria,
o melhor alimento
para os destinados
à Luz do Dia.
Nós, sábios incultos
perante a grandeza
dos Mundos.
13) A MAGIA DA HARMONIA
Às estrelas ensina
a fazer harmonias,
a criar energias,
a saber brilhar.
Magia da Primavera,
mesmo no Inverno
ilumina as cavernas
com suas pétalas.
Ensina que os limites
não são espinhos, são faróis
para fazer-nos humildes.
Ignezita enfeitiça
com aroma e melodia.
É a Sacerdotisa da Sinfonia.
14) A MAGIA DO AMOR
A Saudade
é uma Fada...
Sua Magia
faz brotar,
na paisagem
do meu quadro
o Lago Mágico
iluminado
pela tua presença
meu Amor...
Mergulho no quadro...
Dançamos no aroma
das pétalas das Estrelas..
Nossa Dança
faz o Fantasma
da Solidão
virar o Anjo
do Coração...
15) A MISÉRIA DE ANDRÉIA (28/08/1990)
Tens o porte da Miséria,
soberba Andréia.
Ainda mais se te falam
pirotecnias políticas.
Tens o corte da Miséria,
sublime Andréia.
Ainda mais se te olham
caridosas ojerizas.
Tens a sorte da Miséria,
soberana Andréia.
Ainda mais se te exterminam
heróicas polícias.
16) A NOITE SUBLIME (26/05/1992)
A noite sublime
suprime o monte.
Cristo
mergulha no Rio
Com braços
olhos abertos.
Revela
que as favelas
são as velas
que levam
os maiores tesouros
ao Rio.
Revela
que as favelas
são as velas
mais consumidas
para dar brilho
ao Rio.
Revela
que as favelas
são as fivelas
os elos
que formam
a água-corrente
do Rio.
17) A PÉROLA CINTILA (07/08/1994)
A pérola cintila,
estrela entre
seios de pedra.
A pérola penetra
na alma concreta,
projeta sua magia.
A pedra se entrega,
à pérola se integra.
A montanha vira ostra.
A alma de pedra
se regenera.
Destrói
a crosta megera.
A alma da montanha
vira estrela,
a pedra vira pele.
A montanha chora,
jorra lágrimas
e leite.
Presente
para a pérola.
A princesa liberta
da maldição
de ser pedra,
ata-se agora,
por amor,
à água-corrente,
lar onde
a pérola mora.
18) A PONTE E SUA OPONENTE (09/09/1988)
A Olavo Bilac
Como era bela esta ponte.
Que harmonia nas linhas.
Para casa ou para a fonte,
da alvorada ao poente,
iam e vinham raparigas.
Ainda me alegram as canções
que elas entoam
em minha memória.
Alojou-se na ponte
uma mulher chamada Hortência.
Pobre de dinheiro e de carnes.
Pobre de horizontes na vida.
Pobre sim, pobre de espírito.
Fingia estar ferida
para assaltar os ricos.
Inocentes... apiedam-se...
Ficam com a bolsa
e a alma leves.
Hortência era uma flor
feita apenas de espinhos.
Nesta estrada, neste horizonte,
que desalinho faz uma Hortência.
Como ainda é bela esta ponte,
mas como a afeia a pobreza.
19) A QUIMERA JÁ ERA (25/09/1984)
Era uma vez dez reis
que maltratavam um povo.
Que o agouravam mais que um corvo
e quase o dizimaram de vez.
Era uma vez uma quimera
que habitava naquela população.
Que lutava, mesmo em vão,
para se livrar das feras.
Um dia o milagre se fez,
o povo pôde cantar de novo,
celebrando a derrota dos reis.
Depois de tanta espera
o povo, agora forte e são,
realizou sua quimera.20) A ROTINA E A CIRANDA (23/10/1993)
Eu levo a vida lucrando.
Rala aqui, rala ali, a ralé.
Por isto estou sempre feliz.
Ralar ? Eu jamais quis.
Meu capital gira depressa,
e nessa financeira ciranda
brincando eu vou.
Cantando o refrão tão feliz
que diz:
Rala aqui, rala ali, a ralé.
Por isso, eternamente
feliz eu serei.
Ralem por mim.
Ralem por mim.
Ralar, eu ?
Eu jamais ralarei.21) A SERPENTE ME ESPREITA (07/05/1987)
A serpente me espreita
por uma fresta.
Sem a menor suspeita
de que a espero
com ansiedade.
Lá vem a venenosa seta
iluminar-me.
Cravar-se em minha mente.
Cravejar-me a mente
de idéias brilhantes.
A Rainha
das Borboletas de Prata
empresta-me suas asas.
Vou voando
para o Lago Encantado,
fonte de toda a Poesia.
Minh’alma
mergulha no lago
e logo
todos os diamantes
se acendem
em estado de graça.
Faço do leito do lago
meu líquido templo
e contemplo
o Ídolo Supremo,
a Deusa da Noite
esculpida
nas águas cristalinas
e a evoco
com místicas preces.
A Deusa radiante desce
até o alcance
das minhas mãos.
Agarro-me
nas mãos da Lua
e viajo
por todos os Cosmos,
numa viagem
sem sonhos.
Passados todos
os astros conhecidos,
chego à Constelação
do Gato Preto,
Criador dos Universos,
para pedir-lhe Energias
para ultrapassar meus limites,
para ir além
de meu próprio Zênite.
22) A TORMENTA DO INSTRUMENTO (21/12/1986)
Não mereço
um fiapo
de misericórdia ?
Eu que trago,
atado ao pescoço,
com pesadas correntes,
todo o peso
dos crimes humanos ?
Não mereço
uma gota
de compreensão ?
Eu que engoli
a seco
inúmeras injúrias,
tantas que nem Deus
seria capaz
de engolir ?
Não merece,
por ser um
mero instrumento.
Serve apenas
para ser cumprida
a profecia escrita,
há dez mil anos-luz,
por mim.
Que profecia ?
Quem é você ?
Por que fui
eu
o escolhido ?
Você faz
perguntas demais
para um mero
instrumento.
Sei que não deveria,
mas vou dar-lhe
um aviso.
Esta noite,
quando a Lua piscar
três vezes,
espere
pelo inesperado.
23) ABANDONADO (06/05/1987)
Você de mim partiu
sem sequer dizer adeus,
mas não sumiu
dos sonhos meus.
Você não ouviu
os meu líricos apelos.
Você não viu
meus versos vermelhos.
Você feriu
meu feroz coração.
Você me abandonou.
Você sumiu
com a minha razão.
E sem saber me matou.







