Morte se cadáver ?
Sempre pode haver
quando o Rei Mais Forte
está no poder.
Morte sem cadáver ?
É possível, sim.
O Ministro Calote,
primo do Rei Mais Forte,
certa vez
disse-lhe assim:
“Trezentos trabalhadores,
de nosso idolatrado Reino,
estão agonizando.
Acidente de trabalho...
estavam provando
as trezentas iguarias
que nossos Embaixadores
deram a vossa Majestade
como presente
de aniversário.
Claro, veneno não havia.
Trezentos funcionários,
muito bem qualificados
estão em agonia
por servir à Pátria,
por seguir seu Lema:
“Ordem e Progresso.”
Está na Bandeira,
em Vosso Trono
e nas bandejas.
Imagine a cena:
trezentos homens
colocam em ordem
as trezentas iguarias
e as comem,
em progressão geométrica,
para provar
que, até à morte,
à Pátria serviriam.
Serviram em demasia,
agora não servem
mais para nada.
Nosso Exército
incansável, intrépido,
agora é vítima
de uma overdose de iguarias.
Como diz
Vosso Provérbio Real:
“Quem não vive para servir,
não serve para viver.”
Como nosso
Exército de Provadores
Não está mais apto
a servir-vos,
sugiro que seja declarado morto.
E que eu,
que sou seu
mais fiel e apto servidor
em condições de provar
toda espécie de comida,
sugiro que Vossa Alteza
permita-me acumular
trezentos e um Cargos.
O que já exerço,
de Ministro das Relações
com o Empíreo,
e mais os Trezentos de Provador.
Pois valho mais
que os Trezentos
que ora agonizam.”
O Todo-Poderoso
empossou Calote,
com toda pompa e circunstância,
de maneira instantânea.
Quando os antigos Provadores,
enfim estavam curados
da coma gastronômica
foram considerados mortos,
por justa causa.
Morte se cadáver ?
isso não é nada.
Tudo, literalmente tudo,
pode acontecer
quando o Rei Mais Forte
e o Ministro Calote
exercem seu Pleno Poder.
2) ACRÓSTICO PARA MIM (10/12/1985)
M itos muitos:
A lados, astutos,
U rgentes, fortuitos,
R ápidos, robustos,
O bscuros, oclusos,
B uliçosos, bél(ic)os,
R uidosos, românticos,
I nternos, intensos,
T ontos, tensos,
h O nestos, peçonhentos,
D emoníacos, divinos,
A lucinados, apaixonados,
S elvagens, sonolentos
I mprevisíveis, insuspeitos,
L adinos, lacrimosos,
V alentes, voláteis,
Á vidos, ardentes.
3) ÁGUIA ESTRAÇALHADA (14/02/1987)
Uma águia branca
estraçalhada
no chão.
Um fio de cabelo
não faz uma estrada,
verão.
Se há uma espada
atravessada
em minha garganta
em vão.
4) ALEGORIA (07/04/1987)
O tapete de relva azulada
estende-se até o outro lado
das montanhas.
Pássaros passeiam soltos
como nos contos
d’antanho.
A brisa alisa as penas
para as pascer.
Elas se arrepiam de prazer,
parecem pequenas antenas
captando as ondas facécias
das fadas alvissareiras.
Agradecem em coro as carícias.
Agradecem em coro as carícias
com trinados estridentes,
tirados das goelas fictícias.
Depois seguem em frente,
pelos pêlos patrícios
do tapete macio e transparente.
Uma chuva de gotículas douradas
tinge de sol a passarada,
que nada nas poças
com grande alvoroço.
Quando a chuva passa,
mais que depressa
secam-se todos
uns aos outros.
Sob as asas
todos levam frutas suculentas,
saboreadas com gosto.
Desfrutam de solo tão rico,
que os alimenta
e os deixa bem dispostos
a cumprirem se destino.
Aqueles que antes deles
palmilharam o mesmo caminho,
fecundaram o solo daninho,
disseminaram as sementes,
regaram com seu suor
e seguiram crentes
de que a empresa seria melhor.
De que a empresa seria melhor
para os que os que viessem após,
se colhessem os frutos plantados
no solo por eles amado.
Mas eis que a estrada
bifurca-se em três.
Só a escolha certa
não leva ao deserto
de onde não há volta.
Do céu vem a resposta:
uma seta de sete estrelas aponta
o rumo certo a tomar.
A rota para a nova vida,
só possível na Terra Prometida.
Só é possível na Terra Prometida,
viver sob o olhar protetor da Lua.
Seus raios fazem com que o sangue flua
muito mais límpido
e um espírito
mais firme se construa.
Todos são abençoados.
essa é Lei do Karma:
Toda grandeza de alma
será bem recompensada.
O fim da jornada
não está na Terra Prometida.
A Morte convida
para nova estrada.
5) ALQUIMARIA (06/07/2001)
Aqui estou eu,
sentada em meu trono.
Em meu forno
de alquimia.
Cozinhando
meus neurônios
em mistérios,
em mercúrios brandos,
em banho maria.
6) ALUCINAÇÃO 16/04/1988
um lunicórneo alucinado
pasta pelos prados,
silêncios do meu sonho
pasta o filho
pelos campos, flores
do teu sorriso
navegam o mar de bronze
em vitórias-régias
de invisíveis velas
os doze nomes do Horizonte
um Sol minúsculo
do seu sepulcro
engendra na rocha
a fonte límpida
de onde afloram
todos os símbolos
as rosas de Ísis
são intangíveis
até cumprir-se
a quadratura das Maçãs
sibilantes olhos jorrando leite
na tua vertigem de ser peixe
na alegria exata das Manhãs
7) AMADO CAVALO ALADO 16/08/1987
Juro que um dia hei de matar-te
Meu cavalo amado
Para ver-te cavalgar
Mais vivo, saudável e verde
Pelos prados azuis
Do meu sonho
Hei de matar-te
Para imantar-te
Para que possas atrair
Legiões de loucos
Hei de matar-te
Com arte
Por toda a parte
Com amor nos olhos
Hei de matar-te
Sem dó nem piedade
Ao nascer da tarde
Com serenidade
E aos poucos
Hei de matar-te
De tanto olhar-te
Sem poder cavalgar-te
Já que nem ao menos existes
Para que eu possa dizer de ti
Que és meu
Hei de matar-te
Como se deve matar
Tudo o que não nasceu
Hei de matar-te
Enfim
Por descobrir que em mim
És o que não souEU
8) AMANTE DE ALUGUEL (30/09/1984)
Se acaso me quiseres
Te dou quando puderes
Quando eu puder também
Sou mulher da vida
Há muito estou perdida
E da perdição
Já fui muito além
Se comigo trepares
E se bem me pagares
Te elevarei ao Céu
Eu não nego fama
E com boa grana
Cumpro o meu papel
Posso até acabar na lama
Mas que ela antes seja cama
Dessa amante de aluguel
9) AMANTES DO MESMO HOMEM
(SONETOS GÊMEOS)
1
Não partia antes de roubar
do jardim de seus lábios
a flor de um beijo
para depois ofertar
à outra amada.
Nem os mais sábios,
por mais que tivessem desejo,
explicavam aquela situação complicada.
Na verdade, a resposta era simples.
Ele amava as duas com o mesmo amor.
Das duas ele era o príncipe.
E as duas davam-lhe amor.
Como o amor não conhece limites,
podia ele das duas dispor
2
a seu bel-prazer.
Ele se deleitava no corpo das duas.
Elas era suas
nos jardins do bem-querer.
Até que um dia a desgraça
abateu-se sobre as duas.
E lá se foram pelas ruas,
chorando até do enterro a praça.
As duas se vestiram de luto
pelo mesmo homem,
mas jamais se conheceram.
Ambas solenemente prometeram
não amar a mais ninguém
e aprisionar-se em luto absoluto.
10) AMAR (08/02/1983)
Amar é triste
Mas não existe
Nada mais alegre
Que o ato de amar
Amar consiste
Num ato de entrega total
Como olhos de amar você enxerga
Tudo o que e invisível
E sobrenatural
Quando amar você não negue
Nada à pessoa amada
Pois assim o Amor prossegue
Sem que nada impeça a caminhada
Em direção
Ao coração
Da pessoa desejada
Amar é diferente de estar apaixonado
Pois a paixão é passageira
E o Amor é tão firme
Que, quando instalado,
Livrar-se dele não há quem queira
Quando na Corrente do Amor
Você estiver sintonizado
Todas as portas lhe serão abertas
E você estará sempre localizado
Nos lugares certos nas horas certas
11) AMIZADE ETERNA 02/07/2001
Amizade
é pétala, é estrela,
brota, brilha,
em todo lugar:
no lago, no lar ,
na montanha, no mar,
no céu, no olhar.
Amizade
é fogo, é luz,
é arte, é inspiração,
ilumina com carinho
nosso caminho,
nosso coração.
Amizade
é água, é rio
é cachoeira, é chuva,
lava nossa alma
quando raios, pedras e espinhos
nos enchem de traumas.
Amizade
é ar, é asa,
é brisa, é melodia,
nos faz voar,
ver o melhor caminho
para os sonhos realizar
ou apenas passear.
Amizade
é terra, é arvore,
é adubo, é raiz,
põe nossos pés no chão,
nos ensina que amar
é melhor que ser campeão.
Amizade é tudo isso
e é muito mais.
Se meu coração
cantar só amizade,
essa canção
não vai acabar jamais.
Para finalizar, vou
lhes dizer, então:
amizade
é magia, é alquimia,
é transformação.
Transforma o ódio,
nosso lixo interior,
no ouro mais precioso,
na mais bela das artes,
o amor.
12) AMOR É TERROR
Amor esteve aqui,
amenizou minhas ânsias.
Renasceu minhas esperanças
só para me iludir.
Amor almoçou aqui,
matou minhas fomes.
Limpou minhas fontes
só para me diluir.
Amor dormiu aqui,
orientou meus sonhos.
Exorcizou meus monstros
só para me implodir.
Amor morou aquí,
iluminou minha caverna.
Coloriu meu castelo
só para ver-me ruir.
Amor, bendito Amor.
Fez de um mísero mosquito,
Um magnífico Condor.
Só para vê-lo abatido
Por seus falsos amigos,
aliados benditos do Amor.
13) AMOR ESPIRITUAL (28/09/1984)
Meus olhos vêem
Meus ouvidos ouvem
Todo meu corpo sente
Minha mente espera
Meu coração se desespera
O amor está ausente
O tempo passa e se estende
Meu coração não entende
Porque o amor está distante
O amor está errante
Está morto agora
Sabe disso a mente
Mas o coração doente
De tristeza chora
E espera um amor ardente
Ao romper da aurora
Do meu corpo ausente
Minh'alma te namora.14) AMOR MALDITO (08/02/1988)
Amor esteve aqui,
amenizou minhas ânsias.
Ressuscitou minhas esperanças
só para me iludir.
Amor almoçou aqui,
matou minhas fomes.
Limpou minhas fontes
só para me diluir.
Amor dormiu aqui,
orientou meus sonhos.
Exorcizou meus monstros
só para me implodir.
Amor morou aqui,
iluminou minha caverna.
Coloriu meu castelo
só para ver-me ruir.
Amor, maldito Amor.
Fez de um mísero mosquito
um magnífico Condor.
Só para ver-me abatido
pelo tirocínio
de meus inimigos,
aliados malditos do Amor.
15) AMOR PRÓPRIO
Se faço jejum
até virar meio salário mínimo,
é por Amor...
Se engulo água
até parecer
um Marajá,
é por Amor...
Se me injeto
sangue aidético
para ser amanhã
Ulisses Guimarães,
é por Amor...
É por Amor, sim.
Não duvidem de mim.
Me amo tanto, tanto, tanto,
que sou capaz
de escrever-me
apaixonado epitáfio...
E enterrar-me vivo .
16) AMOR, NAU FRÁGIL
Meu coração naufraga
por estes verdes mares
e por todos os lugares
por onde passa
sua verde água,
procura um louco
coração náutico
por esta
líquida estrada
que sempre
me levará a nada.
17) AMOR, VIDA, PAZ, SIM (18/10/1984)
A queçamo-nos no mesmo calor.
M isturemos tudo o que é cor.
O sculemo-nos com Amor.
R eunamo-nos seja aonde for.
V alorizemos a Vida.
I nventemos um novo ponto de partida.
D escontemos a paixão reprimida.
A memo-nos, é tempo ainda.
P ratiquemos a Paz.
A ssim deixaremos o ódio para trás.
Z arpemos do mesmo cais.
S e nós nos dissermos sempre sim.
I niciar-se-á assim
M ais uma era pra você e pra mim.
18) ANA MARIA MARIANA (11/12/1985)
Ana Maria
adentro seu quarto
como um exaustor o faria.
Caminha para o quadrado
espelho fixo no frontispício
de seu armário perolado
para dar início
ao vespertino ritual
virtual e fictício.
Ana Maria despe-se com vagar total,
deleitando-se com cada parte nua
de seu corpo escultural.
Já desnuda flutua
até o vestido de sua noiva
comprado hoje mesmo, na Lua.
Coloca primeiro a coifa
e sobre esta o véu.
Grita a campânula louca.
Nossa amiga, do signo de Lua,
veste-se com a blusa
dourada, doce e difusa,
para deixar-se confusa
sem saber se é bruxa
ou se é musa.
A campânula outra vez grita.
Ana Maria se assusta e se vai,
mas seu reflexo fica.
Mariana do espelho sai
e ao som de castanholas
dança e se descontrai.
Súbito se descontrola
livra-se de seu vestido
e o queima com cola.
Mariana derrama seu riso incontido.
A maçaneta da porta gira.
Mariana retorna ao seu mundo refletido.
Ana Maria se atira
na direção do refletor.
Nele se mira.
É imenso seu tremor.
Fora do espelho está vestida,
mas dentro dele não. Que horror !
Se julga ensandecida.
Porém uma idéia lhe vem.
Sai do quarto e pensa em sua in-vestida.
Mariana sai do Além.
De volta ao quarto
recupera como convém
ao seu proceder petardo
de sua conjugação,
seu cálido vestido alado.
Mariana re-volta à sua reflexão.
Ana Maria nua ressurge
disposta à contra(a)ção.
Elle devient rouge
ao se dar conta
de que sua imagem re-vestida surge.
Isto já é uma afronta
aos seus brios vestais.
Irada se encontra.
Clama por seus direitos esponsais,
conclama aos Reais Juízes,
para livrarem-na do Destino Falaz.
Pouco a pouco esmaecem as matizes,
de Ana Maria a fúria fugaz
esvaem-se as matrizes.
Tendo ficado a crise pra trás,
Ana Maria sorri , estende para o espelho,
a mão que Mariana leva já
para o país da maravilhas,
que há dentro do refletor
e enxerga a Estrela-Guia,
cega de tanto esperar
por este fantástico dia,
o seu dia de se Conjugar.
19) ANJO-POMBO (20/07/1989)
Um pombo
Sobrevoou meu sonho.
Fez-me ver
Ovos ocos,
Monstros sem ossos
E seres outros,
Podres de tão brancos.
Um anjo
Pousou em meu sonho.
Fez-me conhecer
Tempos flácidos,
Povos ácidos
E olhos
cegos de tão sábios.
Anjo-pombo,
Nasci em pleno vôo.
E fiz-me descobrir.
Viver é ótimo
Se somos soltos,
Se somos loucos.
20) ANOITEÇA E ACONTEÇA (29/08/1986)
Não vá agora.
Espera que anoiteça.
Que o impossível aconteça.
E então espalha,
com teu espelho maldito
o nosso rito macabro.
Não vá agora.
Ou me irrito.
Te persigo.
Te perjuro.
Te perfuro.
Te mato.







