Aos que ficam
Deixo meu talismã sagrado
Meu gato preto
Com luar na testa
Meu gato preto
Vira borboleta argêntea
llumina as mentes
Meu gato preto
Vira colibri
Dá leveza à vida
Meu gato preto
Vira esmeralda
Inspira cantos etéreos
Meu gato preto
Meu talismã único
Deixo como prova
Do meu amor ao mundo.
2) APOLO E O CENTAURO 11/11/1991
Apolo,
tua Lira é tão clara...
Cegaste meus olhos
para ser eu
o teu Centauro.
Centauro,
a pororoca
dos meus cascos
sobre o solo
é o som das castanholas
do teu sangue !
Neste Inferno
de nossos Versos,
as Rimas
são as Cafetinas
da Língua !
3) ARADOS ALADOS 14/06/1990
O arado será árduo.
O corpo será árido.
O trabalho será máximo.
Os frutos serão vários.
Mas se o grão
é fogo-fátuo,
nada valem
os campos vastos.
Os frutos serão vários,
mas não haverá aves,
apenas sapos.
O arado será astro.
O corpo será casto.
Não haverá aves,
apenas sapos.
Mas nos campos vastos
haverá lagos.
E se os sapos
forem girinos,
não haverá aves,
mas haverá lírios.
4) ARQUEOLOGIA QUÍMICA 28/10/1988
Homem em Grego
É Antropos
Antro de pós
Ou seja,
A menor partícula divisível
Da matéria
Vulgarmente conhecida
Como maconha.
5) AS ... ANDAM SEMPRE AOS PARES
O espelho parece um contínuo.
Porém, ao tocar-se nele,
ele vibra.
Então percebe-se
suas cordas cristalinas,
seu som perfeito.
Anti-negra argentina,
em tempos de nulilúnio,
envolvia com
seus cabelos
incandescentes
o mundo.
A Poesia menstruada
pode ser perniciosa.
Inútil cultivar versos
fadados a falecer.
“Brandir a lança
em prol do estilo”,
transforma-se em suicídio.
A lança escapa ao controle.
Se lança contra o artista.
E pensar que tudo
o que eu sou
cabe dentro
desta caixinha
de poesia.
6) ASCENSÃO (29/01/1987)
Meus pés empunham
o sagrado gládio
pelo gladiolo.
Cachoeiras nascem
das palmas
de minhas mãos,
escorrem
entre meus dedos
fecundam o chão.
Meus olhos formam
o calendário maia,
marcando o ritmo
do rito
realizado em conjunto
em seu templo
no alto do Himalaia.
Meu terceiro olho
é o Tao,
nele me encolho
enquanto escolho
o fatal
Gavião Astral.
Acima
de minha cabeça
sete Pirâmides
cristalinas
giram.
Minhas asas
me alçam
em direção
ao trono de Deus.
Onde me sento,
pois o Dono
está ausente
atrapalhando
os humanos
destinos.
7) ASSIM SOMOS NÓS (29/12/1984)
Assim é a vida.
Assim somos nós.
Mistura de sonho
e realidade.
Mentira e verdade
eternamente juntas
em nossa mente,
em nosso coração.
Assim é a morte.
Assim somos nós.
Fracos e fortes.
Somos vítima e algoz.
Dos rios do dia e da noite,
somos fonte e foz.
8) ATAQUE E DEFESA (19/01/1987)
Nas lagoas de éter
dos teus olhos,
cabem sete abismos.
Torpes gatos pretos
mergulham sete metros
atrás dos peixes de luz,
com escamas azuis
dos teus olhos abissais.
Os gatos se entrelaçam,
numa complexa trama,
formam uma negra esfera.
Romanas rãs roxas
esguicham veneno rosa
no teu olhar, para vedá-lo.
ao alvo brilho lunar.
Triplo filtro inverte o efeito.
O maligno líquido
converte-se em limo límpido
e alimenta os peixes.
9) ATENAS E EU (27/12/1984)
Um som metálico ouço distante
Não sei quem ou o que o produz
Só sei que neste instante
Ele me fascina e me seduz
Agora a vejo, deslumbrante
Envolta numa aura de luz
A reconheço, é a deusa Atenas
Aquela que antes vi em sonho apenas
Ela coberta está de brancas vestes
Está muito mais provocadora
-Vós, que de tão longe viestes
Gostaríeis de ser minha senhora?
Mas, se recusardes, deusa celeste
Por favor, não ide embora
Sejai então a minha guia
A luz da minha noite, a luz do meu dia
-Meu suplicante, a teus desejos
Não posso oferecer minha recusa
Eu, com meus lampejos
Serei muito mais que tua musa
Hei de, com meus beijos
Inebriar-te até à loucura
Serei teu veneno, serei tua cicuta
Serei tua vida, a luz que te guia para a luta
-Minha deusa, que alegria extasiante
Te juro, não ides vos arrepender
-Acredito, mas doravante,
Me chama não de deusa, mas de mulher
-A vida inteira esperei este instante
-Não espere mais, faça comigo o que quiser
-Atenas, de tanto vos olhar
Nem sei por onde começar
-Dar-te-ei, então, uma ajuda
Atenas, delicadamente
Seus alvos seios desnuda
E me diz: - Vá em frente
Eu, com fúria muda
Os beijo loucamente
E ela, também tomada de loucura
Pega e acaria-me a carne dura
Feroz , desnudo-a inteira
Surge ante meu olhos um corpo luzente
Ela me mostra a sua traseira
Alucinado, penetro meu membro quente
Nas chamas daquele abobadada fogueira
Atenas, mulher experiente
Rebola lascivamente suas cadeiras
E nós, em crescente ardor
Chegamos juntos ao êxtase do amor
Mas não me dou por satisfeito
Viro-a de frente, abro-lhe as pernas
E vislumbro o paraíso perfeito
Lânguido vou penetrando naquela caverna
Enquanto beijo seus divinos seios
-Atenas, mulher de coxas-termas
-Meu amante, teu pássaro de brasa
Encontrou finalmente a sua casa
Após muitas horas de paixão louca
Nas quais eu, em supremo deleite
Não a penetrei vezes poucas
E ela tantas vezes deu-me seu leite
Gemendo com voz rouca
Nos unimos num único feixe
E voamos para a nossa morada bendita
Onde nascerá mais um ser hermafrodita
10) AURORA INFERNAL
Aurora, o sol desponta no inferno.
Agora, teu beijo tem sabor eterno.
Lá fora, o tempo passa e não sinto.
E flutuo no infinito.
Aurora, teu beijo desponta no inferno.
Agora, o sol tem sabor eterno.
Lá fora, flutuo e não sinto.
E tempo passa no infinito.
Aurora, desponto no inferno.
Agora, o tempo tem sabor eterno.
Lá fora, teu beijo aflora como absinto.
E o sol flutua no infinito.
Aurora, o sol desponta e é absinto.
Agora, teu beijo tem o sabor
de como eu me sinto.
Lá fora, o tempo passa a ser inferno.
E flutuo no teu abismo.
Aurora, o sol desperta meu inferno.
Agora, o tempo tenta parar e eu evito.
Mandrágora, flutuo ao sabor de infinito
do teu beijo, ávido labirinto.
11) AUTO-DEFINIÇÃO 06/04/1988
Quem se assemelha
A uma estrela
De luz
Cambiante e obscura
Pode definir
Um brilho fixo?
12) ÁVIDO ACALANTO (17/11/1990)
Ouves meu cálido acalanto.
Teus espinhos
abrem-se em estrelas,
oferecem-me seus poemas.
Meu acalanto,
ávido de pedras,
percorre os poemas,
adormece tua orquestra,
seqüestra tuas rimas.
Meu acalanto,
ávido de espaço,
pavimenta tuas dores
com as rimas
dos teus espinhos.
Meu cálido acalanto
seduz as estrelas
de uma criança,
para saciar
sua sede de inocência.
Meu pálido acalanto,
ávido de sangue,
adormece a criança
em suas estrelas
e as fecha em espinhos.13) BAILARINA ( Autores: (1) Denise (2) Mauro (3) Lúcia )
Queria ser agora (1)
uma bailarina, (1)
dançando nas eternidades (2)
das almas do mundo. (2)
Varrer a névoa (3)
dos olhares solitários. (3)
Coroar os espaços (1)
de diamantes tinindo. (1)
Os espaços são átomos (2)
sem cor e sem brilho. (2)
Ultrapassam as dimensões (3)
do eu faminto (3)
e atingem de leve (1)
os corações partidos. (1)
Queria ser agora (2)
uma borboleta. (2)
Voar solta entre violetas.(3)
Dissolver apegos (1)
nas flores despedaçadas. (1)
Ressuscitar as ruínas (2)
das almas desprezadas .(2)
As almas desprezadas (3)
são como anjos adormecidos (3)
em esferas de vidro (1)
nos Alpes Suíços. (1)
14) BAIXELA DE PÉROLA
No centro de pérola da baixela,
arde a negra chama de uma vela.
Ao redor, dúzias de sentinelas.
Na outra sala, um cavalo
com asas de borboleta.
No dorso um homem
sem cabeça,
com chifres de prata.
Um nó une
os dois aposentos,
atado pelo gigante Argênteo,
encarnado
na Sacerdotisa egípcia.
O manto da Deusa exala
nuvens de incenso,
afastando os espíritos infensos
que rodeiam sedentos
a seiva da cerimônia,
para enchê-la da acrimônia
que putrifica a alma.
Um dos quatro humores
que moram
nas veias principais
das Selenitas Maiorais.
15) BAIXO RETRATO (09/04/2003)
Quando digo homem,
digo o mendigo
que nas trevas,
da selva
de pedra,
fez seu lar.
Quando fito
o infinito,
fito aflito
o Paraíso
que pra Imbecília,
esta bela ilha,
jamais vai
querer voltar.
Só como pedra.
Quero aprender
a me virar sozinho.
Quando me viro
pelo avesso,
me disfarço
em esfera
feita de espinhos.
Afasto
todas as feras
do meu
caminho.
Só cheiro poluição,
poeira de pessoas
com dinheiro
nas veias.
Quando sinto
o selvagem aroma
da polícia
se aproximar,
faço meu feitiço.
Viro incenso
de camomila.
Acalmo suas fardas,
desarmo suas almas.
Quando ela se afasta,
vai pro bar festejar a vida...
Eu, que não tenho
tempo a perder,
pego as armas dela
e vou assaltar
para salvar
a minha vida.
Quando ouço um pranto,
já não me espanto.
é só mais um louco,
uma pobre alma
que de nada sabe.
Vive no Sistema Assolar.
O sol gigante
desta gritante cidade
seca a humanidade
de todo olhar.
16) BATE AQUELA ÂNSIA
A Cazuza
Pode seguir tua utopia,
tua esperança de ensinar.
Fantasia e sonho
de um mundo melhor.
Teu futuro é desastroso.
Não vejo grana, só vejo dor.
O contracheque é palmatória,
castigo por ser sonhador.
Quem persegue um sonho
não se cansa.
Por favor, caro professor,
me avise
antes de ir embora.
Quem persegue um sonho
sempre dança.
Por favor, caro professor,
fique comigo, quando desistir
de seu sonho impossível.
17) BEBI TEU DOCE ESPERMA
Bebi teu doce esperma
Em doze taças de cristal
Dissolveu-se a amarga pedra
Que habitava o meu quintal
A pedra era uma nódoa
A nódoa era ilusória
Só depois eu descobri
Quem vive à margem da História
Deve aprender por si
Bebi tuas mágicas lágrimas
Em doze taças de prata
Minh’alma foi lavada
Expurgada de toda mácula
Lágrimas vegetais
Esperma carnal
Nunca mais
Noturno mal
18) DEUS DA LEVEZA
Beija-Flor
A areia da ampulheta
Não cai sobre ti
Não tens o peso dos séculos.
Beija-Flor
Nem o Sol, nem a Lua
Brilham em ti
Não tens o peso dos sexos.
Beija-Flor
Tuas asas ágeis
São hábeis
Na levitação
19) BOCA DO INFERNO (24/05/1989) (SONETO COM APÊNDICE)
A Gregório de Matos Guerra
Teu divino dedo ferino
desabrocha consciências onde toca.
Tua divina lira fescenina
arregala, desperta, acorda.
Olho aberto às falcatruas
dos infames governantes baianos.
À menor injúria tua,
fogem os pilares dos desmandos.
Quisera eu ter a tua lira,
o teu engenho, a tua arte,
para infindos Demônios Críticos
cantando semear por toda a parte.
Como tu, Gregório, sou Brasileiro.
Digno sou de continuar tua Obra.
Te rogo, ser sublime, faça-me herdeiro
da tua musa Praguejadora.
20) BOMBA DE NEOLOGISMOS (03/07/1987)
Vou fazer
uma bomba de neologismos
com morfemas subversivos.
21) BORBOLETA BAILARINA
Queria amar agora
como bailarina.
Iluminar os abismos
das almas aflitas.
Varrer a névoa
dos olhos solitários.
Coroar os espaços
com diamantes florindo.
Os espaços são átomos
sem cor e sem brilho.
Vivem de esperar
os raios da Poesia.
Queria amar agora
como borboleta.
Voar livre
entre cometas.
Dissolver apegos
nas almas desprezadas.
As almas desprezadas
são como anjos dormindo
em esferas de vidro
nas Nebulosas do Espírito.
22) BRASÍLHA
Cidade de concreto.
Homens de abstrato.
Planos práticos
para causar impacto.
Deus deveria enviar
este dilúvio
para Brasília.
E enviá-la,
através dele,
para o exílio.
Brasília deveria
virar ilha,
arca de Não-é,
para nos livrar
do Palácio dos Palhaços,
dos Áureos Dinossauros,
que exaurem
o sol da Pátria.
Antes que o Gigante
adormecido pire
e desapareça
no abismo,
sem sombra
de arco-íris.







