A Lima Barreto e Fernando Pessoa
Deus quer, o homem sonha, o País nasce.
Deus quis que a Pátria fosse excelsa,
Que ao ápice se alçasse.
Sagrou-te, e foste estudando a terra.
E, cavaleiro estudante, foste escudo
Das nuvens, dos índios, de tudo.
Mas viste teu Sonho, de repente,
Sumir tragado pelo Gigante.
Quem te sagrou, fez-te Brasileiro.
Da Pátria nos deu sinal em ti.
Cumpriu-se o Mal, o sonho se desfez.
Senhor, falta cumprir-se o Brasil.
2) DEZ ANOS
Nos amamos durante dez anos.
Dez iguais à eternidade.
Eternidade feita de desenganos.
Desenganos que destruíram a vaidade.
Vaidade, obstáculo aos nossos planos.
Planos de uma perfeita felicidade.
Felicidade de nos amarmos durante dez anos.3) DEZ POMBOS (14/06/1987)
Dez pombos
de ouro
em vôo redondo.
Adorno
de cabeça
da Madona.
Anjos
nos quatro cantos,
em tom de encanto,
entoam cânticos
em seu louvor.
Dentro
de seu fértil ventre,
uma rosa branca reluz.
Seus dois seios de luar plenos.
O sinistro no plenilúnio.
O destro no nulilúnio.
4) DIA DE ORGIA 08/11/1987
Foi numa orgia
de velórios múltiplos
que nossas energias
se conheceram
num segundo fúlgido.
Nossos caixões tremeram
de pavor e prazer.
Vimos Adão e Eva
nas alturas do Inferno.
Vimos Lúcifer nas baixarias
do Paraíso.
Cérbero latiu
abriu os portões
do Éden.
São Pedro cantou
fechou os portões do Hades.
No Inferno Satanás se ajoelhou.
Na testa de Deus
dois chifres surgiram.
E fizemos amor
sobre os epitáfios.
E o Céu foi exorcizado
de todos os anjos.
E o Inferno foi limpo
de todos os Demônios.
E o Universo inteiro
será o Nosso Reino.
5) DIABO (14/12/2000)
Sigam a linha
do meu raciocínio
através deste labirinto.
Os piores pecados
podem ser vistos
como nossos
melhores amigos.
A luxúria reanima
uma relação
com a chama da paixão.
A vaidade eleva
a auto-estima.
O egoísmo nos defende
de nossos falsos amigos.
A preguiça é necessária
para recarregar
nossas energias.
A inveja, quando é boa,
reconhece o valor
das outras pessoas.
A gula, numa festa,
só nos dá prazer.
A ira energiza
e bem conduzida
elimina nossa inércia,
nos afasta da rotina
e nos leva a vencer.
Tudo na Vida
é relativo...
O Diabo é pintado
como o maioral,
o pior inimigo,
o maior mal,
o criador
de todos os pecados.
Os piores pecados
podem ser vistos
como nossos
melhores amigos.
Por isso diz
a popular sabedoria:
“há males
que vêm
para o bem” .
e “o Diabo
não é tão feio
como se pinta”.
6) DILÚVIO PELO TELEFONE 06/01/1988
Suas sílabas pingavam
Pelos furos do telefone,
Bebi o sal amargo
Que a fiação me trouxe.
Era uma garoa fina
Parecia não ter fim.
Tuas sílabas diziam:
Como sofro, ai de mim.
O prato contagiante
Apossou-se de meu ser.
Encharquei meu lenço amigo,
Não sabia o que fazer.
O lenço era de bolinhas,
Hoje todo branco está.
As bolinhas na torrente
Deixaram-se levar.
Era já uma tempestade,
Você de lá, eu de cá.
Nosso choro dava inveja
Ao Carinhoso.
Tempestade é pouco,
Era um dilúvio mesmo.
Tirei meu bote do bolso
E pela janela do calabouço
Saí remando a esmo.
Encontrei-te numa esquina.
Remavas tua jangada.
A jangada era pequena
Para caber tanta beleza,
Beleza em prantos banhada.
Nossas mãos se uniram.
O enlace foi fatal.
As embarcações viraram,
Os chorões se derramaram
No imenso mar de sal.
Nossos corpos enlaçados
Na praça foram atracar.
Nos amorosos braços
Da Pietá.
7) DISCO VOADOR
Balançando-me na rede.
O sol irrompe
dentro das nuvens.
Ouvi pássaros cantando.
Vi pessoas correndo
sem se preocupar
com o que poderia acontecer.
Quando, de repente,
aconteceu.
Um luz no céu apareceu.
Olhamos todos, surpresos,
para aquela luz imensa, intensa.
Era apenas um disco voador.
Todos se dispersaram
Ele sumiu,
no céu azul de anil.
E então acordei.
Pensei :
pesadelo !
Ninguém reconhecia
minha nave
ninguém se lembrava
de meus famosos filmes .
Não sou
um astro decadente.
Foi apenas um pesadelo.8) DO FUNDO DO POÇO (27/03/1988)
Do fundo do poço
surgiu um novo povo
e marchou
e cresceu e se multiplicou
geometricamente.
Alguém escreveu e assinou
algo sobre este povo.
9) DÓI-ME AINDA A LEMBRANÇA 23/06/1988
Dói-me ainda a lembrança
Da paterna indulgência.
Eu, quando criança,
nunca paguei penitências.
A mais dolorosa
Foi quando à Rosa,
Filha do pipoqueiro,
Escrevi versos proibidos
E ele, ensandecido,
Quis assar-me no braseiro.
Minha mãe mal continha
Os ímpetos de expiação
Que me impeliam
Ao braseiro do exorcista.
Na sala de jantar
Meu pai convencia
Ao inimigo de Satanás.
- A inocência
e a pouca idade
De meu filho
Nunca o permitiriam
Escrever tais indecências
Em tal estilo.
Satisfeito, o pipoqueiro
Foi-se tranqüilo.
O único insatisfeito
Com tudo aquilo
Sou eu. Sem castigo
Cresci afeito às satanices.
Só nas crises
Me satisfiz.
Lá se vai o meu passado
Abismo abaixo...
A ele atado
Ainda me acho.
Meus pais... tão relapsos...
Meus carrascos imaginários...
Lá vou
Atrás do meu passado...
Meu hoje pagando
Tudo quanto
Meu ontem cometeu.
10) DUELO POÉTICO
1: - A calma incontável
Dos pirilampos
Pelos campos amplos
Dos meus sonhos calcificados
2: - Sonhos calcificados ?
Idéia mais esdrúxula.
Não poderias arranjar
Uma idéia menos fluxa ?
1: - Afasta tua voz de mim.
Não vês ? estou meditando.
Só a estrela saberá
Do sangue das montanhas.
2: - Montanhas não sangram,
Não aprendes nunca?
Corujas sangram,
Montanhas coruscam.
1: - "Corujas sangram" é muito banal.
Quero um verso original,
Sobre fontes de cristal
Jorrando estrelas de sal.
2: - Rimas em "al"
São teu forte,
Bem se vê.
Quero ver-te rimar
Ácidos com astros.
1: - Má não o é.
Contudo, excelente seria
Não viesse de ti a idéia.
2: - Não me confundes
Com tuas inversões.
Basta eu achar minha gramática,
Para dar-te uma resposta
À altura da tua afronta.
(2 sai do poema)
1: - A Paz etérea e soberana,
Somente na solidão
A encontrarei.
(2 entra no poema)
2: - Falaste mal da idéia por inveja.
Só sabes falar de "fontes de cristal",
De "sonhos calcificados"
E do "sangue das montanhas".
1: - E da "Paz etérea e soberana."
2: - De onde tiraste esta ?
1: - Me abstenho de responder-te.
Esta pergunta me assola,
Não deve ter resposta.
2: - Não respondas, se não quiseres.
Mudando o rumo...
As lânguidas acácias me disseram
Do teu imenso amor por ti.
1: - E de me amar assim muito amiúde,
É que um dia em meu corpo ,de repente,
Hei de morrer, de amar mais do que pude
2: - Oh ! Narciso dos narcisos !
Tua idolatria por ti
Me enoja e me fascina.
É asquerosa e é divina.
1: - Enfim uma melodia
Sai da tua boca.
Há anos espero este dia.
2: - Chamas palavras ocas,
Ditas sem refletir
De "melodia"?
1: - Sim, só há melodia
Nas palavras ocas
E na ausência de reflexão.
O pensamento e o recheio
São inimigos da música,
Da verdadeira Música !
2: - És filósofo ! Este dote
Me era desconhecido.
Diga, tens mais algum,
Em algum lugar escondido ?
1: - Se tenho, não o sei.
Se soubesse, não te diria.
Se dissesse, não acreditarias.
Se acreditasses, eu desmentiria.
2: - Bela prova de virtuosismo.
Proponho-te um duelo.
Um duelo com palavras.
Se venceres, te deixo em paz.
1: - E se eu perder?
2: - Serei teu calo,
Tua unha encravada,
Tua cruz sobre os ombros,
Por toda a eternidade.
(2: - Se perderes, ganhas
O imenso prazer
De ouvir o som
De minhas sábias rimas
Por toda a eternidade.)
1: - Aceito,
Podes começar.
2: - Gosto das mórbidas.
Adoro o sabor de sangue
Das suas línguas.
Minhas amadas vampiras,
Minha Poesia se curva
À simples visão
de vossos vultos.
Sois a própria Volúpia
Encarnada em criaturas
De rara luxúria.
1: - Minhas amadas são puras
E de lírica leveza.
Sua fala é simples,
Mas suas palavras
Bem valem o ouro
De mil princesas.
As canto sem descanso,
Cansaço não me vence.
E quanto mais as canto,
Mais meu Canto se engrandece.
2: - Meus Versos
Me abrem pórticos
Direto ao Inferno,
Direto ao Império
Do meu Mestre.
Ele ensinou-me a adorá-lo.
Seu halo me oprime,
Meus crimes são Dele.
Minha Lírica sinistra,
Ele a escreveu.
Minha Vida,
Do enxofre foi extraída.
Graças a um espirro Seu.
1: - Meus Versos
São de luz fresca.
Mesmo um cego os lê.
Olhos sãos não cegam,
Ensinam a ver.
Com a Vida aprendi muito.
E o principal:
Não se pode saber tudo,
Mas nosso dever neste Mundo
É a tudo e a todos amar.
2: - Me dou por vencido.
Teu estilo é singelo,
Mas teus versos
São versos de Sábio.
Eu te felicito,
És o vencedor.
1: - Desistes muito fácil.
Teus versos podem ser
Muito superiores aos meus.
2: - Superiores, sim.
Mas na forma.
No mais importante,
És insuperável.
Não mais me verás
Pelo resto da tua existência.
E, vitória maior,
Me ensinaste a Visão.
Eu era cego
E meu olhar
Se julgava são.
1: - Se assim o julgas,
Não te contrario.
Mas te suplico, não vás,
Não me deixe sozinho.
Como posso viver
Sem teu eterno falar?
Eu te suplico, não vás.
Sozinho, será um tédio
Escrever, viver e até pensar.
2: - Está certo, eu fico.
Mas não como cruz,
Nem como unha,
Nem como calo.
Fico somente como amigo.
Um amigo sincero e leal.
1: - Sincero, leal e chato.
2: - Me deixas estupefato.
Mas assim será,
Se assim quiseres.
1: - Assim o quero.
As borboletas meigas
Serão aceitas.
2: - "Borboletas meigas"?
Por demais açucarado.
Escolha algo...
algo mais sanguinário !
1: - Maldito sejas !
Tu e toda a tua geração !
Vá passear no bosque !
Vá colher algodão !
Vá contar estrelas !
Não me aborreças !
Não me perturbe
A meditação !
(2 sorri, como se Satã fosse.)
11) DURANTE O ESPETÁCULO
Durante o espetáculo,
estrelas correm em círculo
pelo chão
como em meus tempos
de criança.
E depois no céu,
seu sustentáculo,
brincam de roda
na roda da vida
e jogam com
o nosso destino.
Os astros, as estrelas e os deuses
combinam as regras do jogo.
Por isso não ponho as mãos no fogo,
por causa do jogo deles.
E se a nossa vida
foi vivida em vão,
é melhor unirmos nossas mãos
e lutar por regras
mais justas.
Vamos virar a mesa.
Assim não dá para continuar.
Muito vai ter que mudar
e o perigo não nos assusta.
Muito pelo contrário, estimula.
Nós temos a certeza
de sermos mais fortes
que os deuses .
12) DÚVIDA CRUEL
Quem sabe ?
Quem poderá dizer
de onde vem
a raça humana?
Se emana
do etéreo amor
do eterno Criador ?
Se surge de chofre
do enxofre
de Exu ?
Quem sabe ?
Quem poderá dizer
para onde
a morte nos leva,
terminada nossa tarefa
nesta Terra ?
Se nos leva
para uma selva
onde os rios
são feitos
de mel e leite ?
Se nos desterra
em imensa caldeira
cheia de fervente azeite?
Quem sabe ?
Quem poderá dizer ?
Quem teria o poder
de responder
a estas perguntas ?
Permanecerão
sem reposta?
Serão postas
as cartas na mesa ?
Quem sabe ?
Quem poderá dizer
com certeza ?
13) É PRECISO SONHAR
Fogo alado.
Navio grande calado.
Sonho embalado
entre brumas de espuma.
Sonho vivente.
Centelha ardente.
Começo consciente.
Coração suficiente
para a escolha fugaz
de um destino sombrio.
Menino bravio.
Leitor de rio.
Leoa no cio.
Labirinto em desvario.
Inaufragável navio.
Aceso pavio
na escuma do gás.
Um sonho de paz,
entre pétalas de riso.
Cantar é preciso.
É preciso sonhar.
14) ECLIPSE (12/11/1985)
A pérola lunar de marfim,
esférico iceberg nadando
no negro firmamento
do mar sem fim.
O rubi solar rutilando
sobre a seda azul,
olho escarlate nefando.
A mancha eclipsática no paul
alastra-se carregando a síntese
da pérola e do rubi
num verso absoluto.
15) EGOÍSMO OU MANDALA ? 27/08/1989
Se eu entrar no Simbolismo
e não sair de mim,
serei apenas um ismo
entre tantos
que há por aí.
Se eu entrar no Simbolismo
e não sair de mim,
serei apenas egoismo.
Serei apenas círculo
girando, girando,
em torno de mim.
Serei nunca Mandala
crescendo de Amor.
16) ELEGIA EM ELOGIO À MORTE (11/03/1985)
Cheguei meu poeta !
Transformarei teu leito de morte
No teu leito nupcial !
Sou aquela que tu negaste
Durante toda a tua existência !
Agora sou tua amante !
Sou eu que te penetro pelos poros
E te levo ao êxtase do amor !
E faço brotar dentro de ti
Não a flor da vida
Mas a flor das trevas !
Venha minha amada !
Joga em meu coração tua semente !
Que ela vire uma flor carnívora !
Que me consome a carne e as vísceras !
Que me corrói os ossos !
Que me corrompe a alma !
E que a carrega rumo inferno
Onde eu viva em gozo eterno !
17) EM BUSCA DA PERDIÇÃO 07/09/1991
Tentei com afinco,
mas não consegui
perder-me nos estreitos
limites do teu desejo.
Nem minhas Fantasias
conseguiram erguer
com tão rala areia,
em meio palmo de criança,
uma parede mínima.
Como poderia desejar
perder-me em Labirintos ?
Nem a Batedeira
dos meus Sonhos
conseguiu produzir,
uma onda mínima
nessa poça ínfima .
Como poderia desejar
Naufragar em grande Estilo ?
Hoje estou viajando.
Hoje ando a procurar
um Desejo bem amplo
para me macular.







