Tem muita gente
que coloca
corda no pescoço
como colar
com medalha
de Herói.
Tem muita gente
crente que é santa.
Sua glória
é gastar
suas horas
e suas costas
a carregar
as cruzes
que rouba
de outras histórias.
Tem muita gente
que pensa
que o céu
só é justa
recompensa
para quem
fica corcunda
de tanto
carregar o Mundo
nas costas.
2) ENGENDRAÇÕES (17-08-1987)
O extraordinário efeito
da estrutura caótica
em movimento
cria alegorias vivas,
próprias para autores
sem idéias
para sonetos.
3) ENTREGA TOTAL
Ela: Venha meu amado.
Não estou de pernas e braços cruzados
e sim de pernas e braços abertos
para recebê-lo por inteiro.
Ele: Não quero ser enganado.
Antes de recebê-la em meus braços
quero estar certo
de que serei o primeiro.
Ela: Não me faça ter embaraços,
não duvide dos meus passos.
Você sabe que nunca tive outro homem.
Ele: Se soubesse, não teria dúvidas.
Além disso, o que me dizem seus traços
é que já esteve em outros braços.
Ela: Mesmo se fosse verdade,
que diferença faz ?
Ele: A diferença é que não tolero falsidade
e os males que traz.
Ela: Então me deixe e me esqueça,
se não pode acreditar no que digo.
Ele: Por favor, não me peça isso,
não me queira como inimigo.
Ela: Então me ame com toda a sua força.
Ele: Não posso atender a tal pedido.
Ela: Não faça drama, me leva pra cama.
Ele: Seu fogo me deixa enlouquecido.
Ela: Então venha e que o amor se faça.
Ele: Mas se eu for e tu já tiveres ido...
Ela: Vou dizer a verdade !
Você é um grande covarde !
Se tivesse coragem,
veria que só te preconceitos
e só diz meras bobagens.
Ele: Vamos abrir o jogo.
Não digo nada por maldade.
Sou impotente, essa é a verdade.
Jamais terei ardor, nem fogo.
Ela: Por que não disse logo ?
Não me faria perder tempo,
com um eunuco avarento.
Ele: Se pra você não amor é só sexo !
É porque pra você o amor não tem nexo !
E queimará sozinha com seu fogo !
4) ENVOLTO PELO NEGRO MANTO (11/07/1985)
Envolto pelo negro manto
da noite sombria,
um homem cego
corre gritando,
à procura da Poesia.
-- Poesia, Musa suprema !
Preciso de uma migalha
de tua Luz !
Necessito fazer um poema
estonteante, como um bolha de vícios !
Inebriante, como a vodka dos deuses !
Alucinante, como o beijo das serpentes !
Asfixiante, como o aroma das meretrizes !
Agonizante, como este trapo de gente !
Já sinto que vens vindo !
Teus olhos são astros rutilantes !
Tua voz é estridente !
O impacto do teu corpo é forte !
Poooooeeeessssiiiiiiiaaaaaaa !!!!!!!!!!!!!!!!!
5) EREMITA (27/11/2000)
A pressa
é a pior inimiga
da perfeição.
Quem pensa
que andar depressa
é a solução,
tropeça
em sua própria
pretensão.
Porém,
para quem,
como eu,
imita o Eremita
e se limita
a subir
um degrau
de cada vez
em sua Vida,
o destino
é ser campeão.
A paciência
é a melhor amiga
da perfeição.
6) ESCALADA ALADA (08/12/1990)
Quando passas
escalas dilúvios
para dissolver
o óbvio.
Despertas nas pétalas
dos humildes lírios
arrepios ilícitos.
Humilde aroma lírico.
Tímido escudo aromal.
Nada pode ser obstáculo
a estímulos tão amorais.
7) ESCOLHA DA ESCOLA 26/11/1993
Escola
encolhe,
escolhe
escoras.
Exclue.
Escolta
a escória
para fora
da História.
8) ESCRITORTO (01/12/1987)
Escrevi com tinta negra
os últimos dias
da Poesia
neste nosso Planeta.
Escrevi com tinta rubra
a paixão louca
da elitista Crônica
pelo Teatro de Rua.
Escrevi com tinta verde
a verdade dos desatinos
das outonais árvores.
Escrevi com tinta azul
os sonhos lúcidos
dos Poetas lúdicos.
9) ESFORÇO INÚTIL (01-02-1986)
Prisioneiro do espaço verde,
um espectro negro
tenta, em vão,
chegar ao rubro astro
no anilado firmamento.
Cintilante fulgor.
Pesada âncora
e curta corrente
separam o ente
da estrela da aurora.
Ponta cravada
no estéril chão.
Pesados elos encadeados
neticulosamente
pelas hábeis mãos de Tanatos.
Uma perna esticada.
Outra perna arqueada.
Braços estendidos
em direção ao ardente
círculo escarlate.
Aflição nos olhos acesos.
Lábios trêmulos.
Tresloucado ser.
Visão inatingível.
Destino inalcançável.
Sonho irrealizável.
Paixão impossível.
Eros luminescente.
10) ESPELHO AMIGO (19/07/2002)
Olhos, espelhos da alma.
Olhos de amigo, espelho cristalino.
Espelho de dupla face,
onde vemos, sem disfarce,
nossa alma e a alma
de nosso amigo.
Palavras de amigo.
Reflexo que nos leva
à reflexão
sobre nossa conduta,
nossa humana condição.
Gestos de amigo,
espelho onde podemos
nos espelhar
para espalhar
por nossa alma,
nosso lar,
nosso planeta,
a Paz.11) ESPELHO DESERTO (03/12/1999)
Águas paradas
só movem moinhos.
Nós jamais
estaremos sozinhos,
mesmo depois de paradas
as águas
de nossa paixão.
Águas passadas
movem moinhos futuros.
Eu vejo isto
acima e além
deste muro.
Mas no deserto espelho
das águas paradas,
vejo você no escuro.
Porém, acima e além
deste muro translúcido
você não me vê.
Moinhos parados
movem-se sozinhos.
(Parece loucura.)
Porém você, minha vizinha,
nos espelhos futuros
não procura me ver.12) ESPELHO DO INFERNO (18/12/1987)
Acordei cedo.
Me olhei no espelho.
Vi múltiplas bocas
rindo da minha cara.
Riam alto demais.
Até no Japão se ouvia
as bocas rindo de mim.
Arremessei o espelho
contra parede.
Cacos de risos se espalharam
por todo o banheiro.
Saí correndo
e o satânico sarcasmo
me perseguia.
Entrou um caco
no bolso
do meu colete.
O bandido ficou calado
até a hora do encontro
com minha namorada.
Ela me perguntava
por que a achava
tão engraçada,
se ela merecia
apenas pena.
Eu disse a verdade,
que não sabia
o motivo
de meu riso descabido.
Mandei o colete
pra lavanderia.
Recusaram,
pensaram
ser brincadeira minha.
E eu nem sabia
o que acontecia.
Um belo e sorridente dia,
encontrei por acaso
um bilhete
no bolso do colete,
escrito por um
admirador secreto
do caco safado.
Peguei o caco
e o entreguei
ao primeiro infeliz
que encontrei
largado na rua.
Hoje a saudade
me oprime o peito.
Onde está o caco ?
Compro o jornal
e o primeiro retrato
é do mendigo
rindo, rindo muito.
Tinha enriquecido.
Descobriu sua vocação
para o humorismo
graças a mim.
Fiquei feliz,
ao ver que colaborei
para que o mundo
ficasse muito
mais feliz.
13) ESPERANÇA E DESESPERO
O corpo quedo sobre a mesa.
A neve cai lá fora.
O homem bêbado,
sem esperança,
chora.
A garrafa está vazia.
Lá fora a vida é velha.
Olha a escuridão do dia.
Sua sala é sua cela.
Sua melancolia
eleva-se ao quadrado
como o sol.
Ele enseia o fim da agonia.
Reza para ser poupado
e morrer logo.
14) ESPERO PELO MEU POETA (27/03/1990)
Um poeta maldito
escreverá em meu ventre
poemas incandescentes
com sua pena divina.
Quando virá ?
Um poeta assassino
escreverá em meu semblante
poemas alucinantes.
Quando chegará ?
Um poeta cabalístico
escreverá em minhas coxas
poemas apocalípticos
com seus olhos sibilinos.
Quando será ?
- Virei, quando não me esperares.
Chegarei, quando não me quiseres.
Serei, quando me esqueceres.
15) ESQUIZOFRENIA MILAGROSA (12-04-1990)
Minh’alma naufragaria
se não se agarrasse,
de tempos em tempos,
à tábua milagrosa
da minha esquizofrenia
16) ESSÊNCIA DO TARÔ
Quer ser a Lua ?
A vela
da Caravela
dos Arcanos?
Quer ser a Força?
A onda aonde
a Caravela navega
pelos Universos paralelos ?
Quer ser a Estrela ?
Seu Anjo da Guarda ?
Sua cápsula de cristal?
Energizar seu Destino
com a Cósmica Medicina ?
Quer ser o Sol,
farol oriental ?
Orientá-la através
da Internet
do Inconsciente ?
Quer ser o Mundo?
Início e final
da aventura original
da Caravela
dos Arcanos ?
É simples.
Basta sintonizar-se
todo dia
com a Essência
do Tarô.
Ou seja,
ter a paciência
do Eremita
para todo dia
pôr a alma
e as cartas na mesa.17) ESTÃO ME OLHANDO (15/09/1985)
Estão me olhando
com olhos iridescentes,
incandescentes.
Me incendeiam a mente.
Me adoro e me devoro.
Estão me cantando
como línguas indecentes.
Esta melodia é bala,
me embala e me abala.
Estão me tocando
com frias mãos inteligentes.
Fazem de mim um marionete.
Me vacinam com um vacilo.
18) ESTE É UM PAÍS QUE VAI PRA FRENTE (16/03/1990)
O grande Presidente,
cujo lema é Trabalho,
decretou que,
no dia seguinte
ao da sua posse,
houvesse ponto facultativo
em todo
o território nacional.
Vejam só o resultado.
Os viciados em droga estão desesperados.
Não há droga nenhuma, pra fazer a cabeça.
Os maridos insaciáveis estão perdidos
As pernas estão fechadas em todos os prostíbulos.
Alastra-se pela cidade uma praga de assaltos.
Todos os guardas estão de pernas pro alto.
Há montanhas de lixo por toda a cidade.
Os garis não ligam para esta geográfica atrocidade.
Há um enorme acúmulo de presunto.
As funerárias não querem saber do assunto .
Não há telefone, luz, metrô, ônibus, nem táxi.
O Brasil está mudo, cego, surdo e paralítico.
Porque hoje é ponto facultativo.
19) ESTÓRIA ESCRITA (06/09/2000)
Esta estória
é escrita
nas pétalas
de uma rosa
pela brisa
das asas
de um colibri.
As pétalas
desta estória,
quem as destrói
é a inveja.
Ela mora no olhos
do vampiro
que coroa
a si mesmo
com o título
de Destino.
20) ESTRADA
Ainda temos
muita estrada pela frente.
Sinto que ainda viveremos
mil aventuras diferentes.
Quando voltamos seremos
muito diferentes.
Em nossa estrada
vamo errar, vamos plantar
boas e más sementes.
Colheremos, com certeza,
frutos de nossas
sementes errantes.
Com certeza seremos
muito mais maduros
que os frutos
de nosso futuro.
21) ESTRELA
Não se desespere,
não faça tempestade
em copo d’água.
A esperança
é uma Estrela imensa
por mais
escondida e apagada
que pareça.
Não esmoreça,
não entregue os pontos.
Segure as pontas
desta Estrela
e veja.
Veja como as nuvens
dissipam-se depressa.
Por mais
sinistras e espessas
que pareçam.
Às vezes na Vida
aparece um túnel
tão escuro e tão estranho
que parece não ter fim,
não ter saída.
Porém,
jamais se esqueça
de que no fim
de todo túnel
uma luz existe,
uma esperança existe:
uma Estrela.
22) ETERNA POESIA 24/05/1984
Eterna Poesia,
razão de toda existência.
De tudo e de todos é a essência.
Sem Poesia nada existiria.
Poesia, origem de toda ocorrência.
É total ordem e total anarquia.
É ato de religião e de heresia.
Livra do vício e vicia.
É coragem e covardia.
É oprimido e opressor.
É ideologia e utopia.
Mesmo com seu imenso valor,
se eterna não fosse a Poesia,
eterno não seria o Amor
23) EU A VIA EM MEIO À VIA (2007)
Em meio à via
Havia uma lápide
A se depilar.
Uma lápide,
A se depilar,
Em meio à via
Havia.
Este evento
é vento,
as retinas
retintas
de rotina
altera.
Jamais me olvidarei
Deste vento,
Evento singular.
Perante a lápide
A se depilar.
Em meio à via.
Havia eu.
Eu a via.
Eu,
a via.
24) EXIGÊNCIAS (07/05/1987)
Nos meus olhos quero refletido
todo o Universo.
Nos meus versos
quero bem nítidos
todos os possíveis mitos.
Quero desvendar
todos os mistérios que há.
Quero que sejam produzidos
pela minha voz
todos os sons.
Quero habitar
em todas dimensões.
Quero ser mais veloz
que a luz e reinar seu lugar.
25) EXÍLIO DE MIM (17/06/1987)
Quando eu de mim fui afastado,
me puseram em lugar desconhecido,
num ermo castelo escondido
no centro de um bosque encantado.
Na torre em que me botaram fui proibido
de exprimir qualquer ato pensado.
De tal maneira fui paralisado,
que só agora percebo o ocorrido.
E por estar demasiado
de mim longe e esquecido,
se eu tivesse me encontrado,
não teria me reconhecido.
Na torre tudo estava estagnado,
parado no tempo e enrijecido.
Eu ia envelhecendo,
na medida em que ia me conformando.
Me esqueci até de que o céu estrelado
estava acima da minha cabeça.
E, por mais incrível que pareça,
o céu era para mim o telhado.
E o mundo, que me era tão querido,
se tornara o quarto onde fui trancafiado.
A tranca era de ferro fundido
na caldeira do meu passado.
Meus sentidos foram congelados.
Meus instintos foram adormecidos.
Meus pensamentos foram eliminados.
Meu ser foi em estátua convertido.
Estando o processo acabado,
do castelo fui recolhido.
E fui exposto, para ser admirado,
no Museu dos Mortos-Vivos.
Milhares de pessoas vinham me ver.
Mais mortas que eu e não sabiam.
Olhavam para mim e sorriam.
Eu não sabia de quê.
Porém, pior que ser motivo de riso,
era ficar, quando o museu era fechado,
no meio de milhares de pedras enfileiradas.
No meio de estátuas de ilustres desconhecidos.
26) FADAS AZUIS
As Fantasias
são como os dias,
tão claras, tão azuis...
E ainda brilham
durante as noites
com sua Luz...
Reluzentes me iluminam
numa corte de Paixão.
Mas se esvaem
e decaem,
quando chega a Razão.
As Fantasias são aladas
como as Fadas
da Canção...
Revoam
na Mente
na Imaginação...
Elas me colocam
em crescente
alto astral...
Mas se dilaceram
quando encontram
a Tesoura do Real.
27) FECUNDAÇÃO (1ª) (27/01/1988)
Pensava as Nuvens...
Meu Pensamento
trovejou teu Nome...
Sonhavas a Lua...
Teu estremeceu
de ponta a ponta...
As Nuvens
acolheram a Lua...
A Lua
iluminou as Nuvens...
Chove Estrelas...
E continuará chovendo
enquanto nosso amor
for eterno...
28) FECUNDAÇÃO FATAL, NOVA VERSÃO (06/03/1991)
Sublime perfume
de poesia
encaderna-me.
O leite lunar
de Atenas
inunda minhas artérias,
minhas metáforas.
Todo amor é fértil,
ao sonhar
com dilúvios
de metáforas e leite.
Firme perfume
de nanquim
extrai raízes de mim.
(De onde vem ?)
Nívea seda
serpenteia
pelas raízes
até meu ventre.
Negra serpente,
ardente, acende
o níveo pavio.
Meu ventre absorve
as duas serpentes.
Gera poemas enormes.







