1) IDÉIA DE MEDÉIA (23/12/1995)
Conheço teu berço, Medéia.
Conheço a tua intenção !
Fazer uma tragédia
plena de paixão !
Faço de teu sacrifício
minha obsessão !
Remédio pro meu vício
de sofrer em vão !
Nossa crise, nosso precipício,
nossa vertigem, início
de nossa comunhão !
Anjos / Nem pensar
Nosso Paraíso
é todo feito de Tentação !2) FERAS (27/11/1987)
Feras me atacam.
Meus arcanos
são frágeis.
Não creio mais
que sejam ases.
As feras avisam
antes de virem,
mas não creio,
pois são atrizes.
Meus arcanos
já me escravizam.
Nas minhas asas
São cicatrizes.
3) FERNANDO É DESPORTIVO (03/05/1991)
Fernando é desportivo,
é campeão de esqui aquático.
Zé Povo ficaria agradecido
se fosse surfista ferroviário.
Fernando é Collorido,
até de roxo está fardado.
Zé Povo ficaria agradecido
se fosse surfista ferroviário.
Zé Povo ficaria estarrecido,
ao ver o Presidente ao seu lado.
Zé Povo ficaria enobrecido,
vendo-se a ele igualado.
Zé Povo ficaria euforizado,
ao ver seu amado Collorido
perder a cabeça
na fissura
para o fio eletrizado
e ganhar deste um belo
e elétrico bronzeado.
4) Infinita Fertilidade
Minha Insegurança
é fecunda.
Gera mil fantasmas
por segundo.
5) FLOR INVISÍVEL (08/11/1987)
Na interseção
de nossas mentes
nasce a flor
jamais vista.6) FOGUEIRA DA POESIA (27/07/1987)
A fogueira crepita.
O papel palpita,
seus versos de amor.
Conversa se volatiza.7) FORÇA (08/05/2000)
Violência vira vício
quando se dispensa
o raciocínio.
Só com inteligência
vence o Campeão.
Se vence com egoísmo
e violência.
Se seu troféu é a ruína
do adversário.
Se pensa que
anabolizante na mente
é sinônimo
de personalidade forte.
O vencedor,
o valentão,
perde o juízo,
perde a razão.
A verdadeira Força
vem da União.
8) FOTOLEITURA
Na face,
ausência de máscara
é marca de santidade.
O manto azul...
Azul é cor e sonha....
Uma quase-Lua
se insinua...
Le lèvre,
pour lire le livre,
est dans sa main.
Deux cotés
du diamant.
Ela é aquela
que no Tarô é vista
sob o número dois.
A Grã- Sacerdotisa.9) FRITAS
O sol meus olhos fita.
O sol meus olhos frita.
10) FUMAÇA DOS SÉCULOS (14/07/1985)
Fumaça dos séculos,
cortinas de lembranças.
Símbolos do início
de novos ciclos.
Retalhos de vidas,
mapas de memórias.
Retratos de uma época
de mudanças radicais
em todos os pontos cardeais,
nos alicerces da esperança.
No futuro enclausurado
nas torres dos castelos,
forjados pelos martelos
do deus Cronos,
a partir de ferros fundidos
nos infernais fornos.11) GANA PELA GRANA 23/10/93
Grana minha gentil que te partiste,
tão cedo desta vida descontente.
Repousa lá no Banco Central eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no Cofre Etéreo a que subiste,
memória desta miséria se consente.
Não te esqueças do ninho quente,
que já nos bolsos meus tão puro sentiste.
E se sentires que possa resgatar-te,
alguma coisa, o vazio que me deixou
ao Mago, sem medo de roubar-te.
Roga ao Collor, que nossos laços cortou,
que tão cedo me leve a embolsar-te,
quão cedo de meus bolsos te levou.12) GARÇA POETISA 14/05/1992
Márcia Garcia...
garça macia...
acácias acaricias...
esgarças
Maciças Matrizes...
Amputas Ampulhetas !
Compensas a perda
das pernas de areia
com penas de seda.
O vidro...
leve..
livre...
vive...
vibra...
EXPLODE
Vira Colibri .
Colibri ágil...
Sábio
sem o peso dos sérios.
Elétrico
sem o peso dos sexos.
Eterno
sem o peso dos Séculos.13) GORDO AMOR 08/11/1987
A Botero
Querida, minha loucura
é me afogar
em tua gordura.
Mergulho nas ondas
da tua bela barriga.
Quando teu estômago ronca,
até o mar se cala.
As esbeltas que me perdoem,
mas gordura
é fundamental.
Vou erguer um totem
em louvor à tua
gula monumental.14) GOSTARIA DE SER... (03/12/1984)
Gostaria de ser uma flor
Para sentir o perfume
Dos teus cabelos
Para ouvir o teu cantar
Para me cegar
Na luz do teu olhar
Gostaria de ser mel
Para adoçar tua língua
Gostaria de ser água
Para tocar na tua pele
Gostaria de ser
Uma fita verde
Para me enroscar
Nos teu dedos
Gostaria de ser tua agenda
Para guardar os teus segredos
Gostaria de ser uma cadeira
Para te servir de assento
Gostaria de ser o teu amor
Para aliviar teus sofrimentos
15) GOZO MÓRBIDO (02/12/1987)
Ouça o gozo mórbido,
a agonia muda e sem dor,
das estrelas despencando
do mar infinito,
do Céu-Self.
Nosso por todas
as eternidades.
Eu morrê-las-ia todas,
dentro dos meus infernos,
se pudesse.
Faria a Lua perder-se
na sinuosa estrada
da Noite.
16) GRAÇAS E TRAPAÇAS (19/08/1986)
São as trapaças do pacote.
São as desgraças da inflação.
Pra se combinar comigo
tem que vencer a eleição.
São as falácias do pacote.
São as traças da inflação.
Quem quiser casar comigo
tem que escrever a Constituição.
Me lembro daquele tempo.
Cem por cento, que disparate.
A corrupção à solta.
Parentes da Prima Rate.
Mas vem o Bigode e vapt !
corta os zeros e salva Isolda.
E a platéia toda aplaude.
Não vê a tesoura
cortar a sétima arte.
São as trapaças do pacote.
São as traças da inflação.
Pra se combinar comigo
tem que escrever a Constituição.
São as falácias do pacote.
São as desgraças da inflação.
Quem quiser casar comigo
tem que vencer a eleição.
A euforia estoura.
Mercados se fecham.
Mercadores se vexam.
E somem-se os touros
e as vacas gordas,
cada uma no seu tempo,
pastam e amamentam seus rebentos.
E o Brasil que se exploda
e se arrebente,
antes que o laço se desate.
Por anda o Abi,
Ackel dos muitos quilates
que foram pros States ?
São as trapaças do pacote.
São as desgraças da inflação.
Pra se combinar comigo
tem que vencer a eleição.
São as falácias do pacote.
São as traças da inflação.
Quem quiser casar comigo
tem que escrever a Constituição.
É uma epístola de demasiadas laudas,
essa mitológica política,
que vai da Explosão Apocalíptica
até os Jardins do Éden.
E se o povo ainda usa fralda,
e se os mortos de maioridade ainda fedem,
Brasília é um Challenger
que fatalmente explodirá de raiva.
17) GRANDE POVO, GRANDE RAÇA (20/09/1984)
Outro povo, outro raça,
que não seja igual a esta,
que manifesta seu horror
e depois cai em desgraça.
Este povo, esta raça,
pensa que o tempo não passa,
quando é tempo de amor.
Mas se cala, diante do horror
deste povo, deste raça,
que ultrapassa os limites
do absurdo,
que transforma este mundo
num mundo de desquites,
onde mora esta massa.
18) GRAVIDEZ (22/09/l986)
Meu ventre quente,
macio e roliço.
Ele chutou minha mão.
Que lindo.
Como é bom sentir você,
meu filho .
Sentir o reloginho
do seu coração
marcando o tempo
que falta
para você
despertar pra vida
Outro chute.
Esse pegou meu lado esquerdo.
São duas minúsculas
bombas-relógio
em contagem regressiva
para a explosão da vida,
dentro de mim .
19) HÁ GOTEIRAS 20/10/1990
Há goteiras
na minha mente...
A Memória
fez um balde
para os pensamentos
pingarem nele.
20) HERANÇA DUVIDOSA 27/05/1988
Herdei de ti
teu cadáver,
embalsamado
pelas minhas lágrimas.
Poderei incinerá-lo ?
Em qual urna
deverei guardá-lo ?
E as minhas lágrimas,
serão mais ou menos
reais que as tuas lágrimas,
por serem minhas ?
Que diferença faz,
se és criação minha ?
E se teu cadáver
é parte de mim,
alegoria ?
Toda criação é real
se há alma no criar.
E a urna funerária ?
Envio pelo correio.
Presente aos que dizem
desprezar a Poesia.
21) HÉRCULEA HERMENÊUTICA (05/08/1985)
1
Cupido esculpido no tempo.
Íon zaino no centro da esmeralda.
Fruto da faina esmerada
da esfinge que ancora
nas veias da palavra.
Lira nas mãos da copa mortal.
+ 2
Ninfa porcelânica.
Pluma anil.
Ex-puma de corpo.
Dores lunárias.
Formosura triangular
Da harpa.
= 3
Alma de salvarana garça.
Filigranas
translúcidas, transcolores
efervescentes, balsâmicas, paradisíacas.
Trem-talhado,
embalsamado arco-íris voltaico.
22) HERESIA A SANTA BRANCA 31/10/1991
Santa Branca não me ouve !
Santa Alva não me escuta !
Vou morrer sem Poesia !
Sinfonia de Cicuta !
Overdose de Bethoven !
23) HEXAGRAMA 07/09/1991
“O que está em cima
é como
o que está embaixo .”
(Hermes Trimegisto)
I
Para você escrevo
meus mais sinceros
Versos de Amor.
II
Nossos corpos
se encontram,
se somam,
desembocam
em Pororoca
na Copa
da Comunhão .
III
Nosso Amor,
Árvore eterna .
Sua Raízes,
robustas Antenas,
nutrem-na felizes
com as Pedras da Vida .
IV
Nossos Versos
convergem
para o Vértice .
Convertem-se
na Vértebra
da Poesia .
V
Nossa Obra, bela Crisálida.
Suas Páginas
serão colhidas.
Este Alimento
inscreverá nas Almas
o Terceiro Milênio.
VI
Estes Versos
com Amor te escrevi.
Creia em mim,
são os mais sinceros
Versos que já fiz.24) HIEROGARÇAS (29-08-2002)
Vejo garças esparsas,
brancos hieróglifos
passeando
no papiro da areia.
Leio em silêncio
o poema escrito
em louvor ao infinito.
Ao céu colorido
onde habitam
os hieróglifos.
Vejo a verde inveja
do mar apagar,
com sua branca borracha,
alguns trechos
que se espraiam
no meio
das páginas da praia.
Ouço as ondas do mar
declamar em voz alta
os versos que restam.
Poesia em elogio
ao, sem conflitos,
sempre verde,
mar infinito.
25) COLA DA HORA (07/12/1990)
Quando os pivetes cheirarem cola,
serão 9 horas.
Ela ainda estará lá,
balão murcho esquecido sobre o ralo.
Os pivetes cortarão suas unhas,
pentearão seus cabelos,
Porão margaridas em seu tranças,
vedarão seus olhos com cola.
Quando os pivetes assaltarem os turistas,
será meio-dia.
O balão florido
será explodido pelos pivetes,
como protesto contra
a perversa Deusa Sociedade.
26) HUMANA MISSÃO (16/08/1986)
Amanhã
é dia de alegria.
Desabrocha a fantasia.
Inhansã,
é dia da fartura,
da provisão futura.
A maçã
é a perdição de Adão.
Mas em compensação
ensina-lhe esta lição:
Transgredir a proibição
é a humana missão.
27) IDEOLOGIA 01/05/1988
Tanto mais arte
Quanto mais bela
Tanto mais bela
Quanto mais perfeita
Tanto mais perfeita
Quanto mais feita pelo homem
Tanto mais feita pelo homem
Quanto mais inspirada por Deus
28) IDÍLIO 19/01/1987
Fios dourados
Pendem das árvores
Feitas de mármore
Fadas brincam
De fazer tranças
Elfos fazem acrobacias
Montados em cavalos alados
Dos lagos
Vêem sinfonias
Cantadas
Pelas Ninfas
Afinadas
Gênios modelam o barro
Dando-lhe formato humano
Adornando depois
Com flores do campo
Os Elfos seguram os homens de barro
Os cavalos alados
alçam os homens de barro
As Fadas aladas
envolvem os homens de barro
Com as tranças de ouro
As Ninfas com seu canto
Animam os homens de barro
Os Homens de Barro
Dançam a Dança da Vida
29) IMPERADOR (04/12/2000)
Só eu mando,
desmando
e comando
este Mundo.
Manda quem pode.
Quem tem juízo obedece
ou muda seu endereço
para outro planeta.
Meu poder é divino,
minha palavra é lei.
Sou o Imperador
de todo o Universo.
Sou o Céu, sou o Ar.
Na hora
em que eu quiser,
o Universo
em nada
se transformará.30) IMPERATRIZ (10/04/2000)
Mãe:
- Mãe está sempre por perto.
Anjo da guarda
sempre alerta.
No Mundo de sonhos
que mora
nos olho da Mãe,
filho é sempre
filhote sem garras,
passarinho sem asas,
semente sem raiz.
E ela Terra,
veste e alimento.
Tudo ao mesmo tempo
e o tempo todo feliz.
Filho:
- Mas o Mundo real
onde mora o filho,
como fera o olha.
Obriga-o a ferir
sua protetora
para colocar
asas, espinhos
e garras para fora.
Pois Mãe
protege demais.
Mãe sufoca.
Mãe deveria
deixar seu filho em paz.
Mãe:
- Mãe é o Anjo da Paz.
Mãe está sempre certa.
Mãe é cem por cento.
Mãe está sempre por dentro.
Mãe está sempre no centro.
Mãe tem sempre cetro.
Mãe é eterna Rainha,
Imperatriz eterna.
Seja na antiga Grécia,
seja no Brasil moderno.
Mãe é sempre Mãe,
apenas muda
de endereço.
Filho:
- Não tem jeito, mesmo.
Mãe é sempre Mãe,
apenas muda
de endereço.







