Era raspadinha e vibrante
E com rabiola latejante,
A mulher embonecada.
Era tão perfeita
aquela amante
Que ele agarrou-a
Num instante.
Penetrou-lhe
na privada.
A boneca era Geni.
Tão perfeita era Geni.
É feita para estuprar.
Não é feita parir.
É boa de arrombar.
Divina Geni.
Mas um dia deu defeito.
Exigiu seus direitos
De assistente sexual.
Exigiu seguro-insanidade,
Carteira assinada
E liberdade
Irrestrita e total.
Ta mudada essa Geni.
Não é a merma Geni.
Das estrofe anterior.
Ta pensando
Que é mulher.
Ta agindo
Igual mulher.
É o fim
Do nosso amor.2) HEROÍNA (09/07/1986)
Do cigarro
Sai a fumaça
A fumaça se enrosca
Na antena do carro
Que passa
Agora é bandeirola
Trêmula inteira
Incauta passageira
Do auto
O motorista
Tenta arrancá-la
A bandeira se esfuma
E escorrega pro asfalto
Pro alto do arranha-céu
Agora é fino dossel
Não passa muito tempo
Sopra tremendo vento
E lá se vai
A fumaça
Outra vez
Entra pela janela
Do apartamento
Daquela que já casou
Com mais de cem
Mas essa fumaça
Não respeita ninguém
Entra nos sonhos
Da bela adormecida
E faz um carnaval
Esse gás fugaz
Lá já não está mais
Pelas ondas
Do rádio
Amado amador
Da donzela3) MISCELÂNEA, A POESIA (05/11/1986)
Entre as grades do azul
Prendi meu coração
Mas terras da perdição
Entre fileiras de bambus
Cujas tulipas ébrias
Enlaçadas com caracóis de Sol
Humanizadas pela Senhora
Das Mil Mãos Célticas
Que seguravam as nuvens da chuva
Enviada pelo Arcanjo
Para libertar o Ano
Das garras da negra viúva
Ela abraça a amplitude
Variante da simplicidade
Com a divindade
De sofrer por suas virtudes
Estas vicejam à sorrelfa
Sob as vistas dos profetas
Sacrificando as festas
De Tarzã com Eva
Vampiros brindam com pus
As chagas de cristo
Confuso avestruz
Na saia que visto
Sobre os seios nus de Vênus
Cujo crista
Desperta desejos incontroláveis
Nos homens de sexos maleáveis
É um prazer mórbido
Essa tal de prostituta
Muito mais que sórdido
E ainda se disputa
E derreta o sólido
Suspiro da cicuta
Amarelecido pelo esquecimento
Filho da feiras do convento
Pinto caretas em nanquim
Expressão do silvo
Difamante do mocassim
Que me dá alívio
Sem exigir tamborim
Que suporte o crivo
Da ira dos frívolos
Na fila dos frígidos
Ao soar o telefone
Corra e corte o fio
Umbilical da fome
Alucinada no cio
Visite o lobisomem
Tente dar um tiro
Nas sífilis
Que retiro
Das Amarílis
Anuncio os cliques
Dos sorriso Karynos
Pour cinq ou six briques
Quero os óculos alcalinos
Sobre o pavimento
No decorrer dos hinos
Crio compartimentos
Para conter taras
E demais condimentos
Analiso facas raras
Bem como torcicolos
Adquiridos em mansardas
Preparo pólipos
Ao molho de chiliques
Por preços mórbidos
Foram feitas plásticas
Nas suásticas
Ficaram tão elásticas
Que nem sequer sorriem
Entregaram de bandeja
Deliciosas cerejas
Com quem solfeja
No trono do harém
Queimaram os queijos
Dos azuis azulejos
Foi a maldição
Que rogaram os bruxos
Em carrões de luxo
Com sofisticações
Feriu-se com ferro em brasa
Em sua própria casa
A Cabala
E veio socorrê-la
Com muito susto
A Língua, a Fala
E uma insolente abelha
Que quase sorriu de susto
Ao ver a égua
Trepando com um muro
Num quarto escuro
A milhões de léguas
Não exitou no delito
Aquele cantor esquisito
Com defeito no braço
Presença sem brilho
nem nos olhos
nem nos lábios
pendurada no tombadilho
da nau de Logos
sócio dos espíritos sensatos
porém conscientes
de que são dementes
e míseros ratos
não me falta inspiração
para dar ração
aos desfavorecidos
também sou religioso
e creio no Deus
dos malditos
Todo Poderoso
Ele me deu
A riqueza
Para que a guardasse comigo
E para que desse aos mendigos
Toneladas de vileza
Montado em seu cavalo-submarino
Navega um grão-vizinho
E seu amante
Entre alentos e afagos
No Morro dos Cataventos Sussurrantes
Ao longe num gesto largo
Uma foice de cimento
Com sutis
Acenos convida os dois
Para morrerem depois
Na ponta dos fuzis
No fundo da algibeira
Carrego rotineiras
Massagens
Enquanto medito
Me perco no embalo
Das mixagens
Se encontro Carlitos
Corro para alçá-lo
Ao altar
Que as Titãs
Ergueram nas manhãs
De Gibraltar
4) MONSTRUOSIDADES (03/05/1986)
Garbosos e bravios guerreiros
Todos de bom tamanho
Temiam os terríveis monstros
Dos mares d’antanho
Vírus, viris, virulentos
Bem gordos
Uns pacíficos outros violentos
Menores apenas que os engodos
Seus pais e parceiros
Curioso é o encontro
Ente eles e as naus
No furioso Helesponto
Não eram de alma maus
Olhavam secamente
Para os navegantes curiosos
Raros e ofegantes
Mas ficavam furiosos
Se molestados
Pelos petardos
Das embarcações
Alguns entoavam canções
Como as sereias
Outros entornavam vagalhões
Como as baleias
Menos horrendos
Apenas que seus nomes
Vivem morrendo
De fome
O monstro negro que carregava
As selavas sem folhas nas costas
Não era suficiente proteção
Contra as investidas
Do que moravam nas encostas
Dos montes marinhos
Nem dos monstros vizinhos
Com os quais faziam apostas
Para ver quem devorava
Mais selvagens de uma só vez
O monstro-bispo rezava uma oração
Abençoando os oponentes
Se aqui demonstro
Exemplos de monstros
Em tempos de curiosidade
E templos de posições invertidas
É porque os contemplo
Em toda sua variedade
no completo complexo
de sua sociedade
este texto é reflexo
de anos de estudo
intenso e perplexo
eis tudo5) NÃOFRAGAR
Farol na proa idade nau
Nau cega, sem velas
Luís, o Nevoeiro
Onde o está o Sinal ?
Luís, és Pioneiro.
Nada efêmero
Naufraga, Luís de Pinho...
Deflagra teu Destino
Naufragar é imperativo
6) NATURA (26/05/1986)
Flores nos ramos azuis
Amores vibrantes de luz
Aromas viajantes.
Aves pelos ares...
Mares da seiva...
Salvam a selva
Das trevas...
Girafas gigantes
Giram e geram
Gerânios
E girassóis...
Estrelas de neve
Argentina
Nas nuvens de fina
Renda voam...
Pinheiros
Pioneiros
Prisioneiros
Das sementes
Das serpentes
Fôrmas de vento
Inventam
Formosas glosas
De perfeito feitio
Nas rochas
Lírios líricos,
Empíricos no empíreo
No delírio colérico.
È de admirar
A face louca da lua
A se mirar
No largo lago
Do luar.
Folhas de fibra
Desfilam á desfiada
Por desfiladeiros
E nas folias florestais
Desafiam formidáveis
Formigas famintas.
7) NUNCA DANTES
Por cavernas
Nunca dantes descobertas
Por barracos
Nunca dantes demolidos
Por escravos
Nunca dantes alforriados
Por pedaços
Nunca dantes confessados
Por totens
Nunca dantes adorados e erguidos
Por empresários
Nunca dantes falidos
Por super-heróis
Nunca dantes vencidos
Por operários
Nunca dantes construídos
Por presidiários
Nunca dantes atrevidos
Por fatos
Nunca dantes consumados
Por Cristos
Nunca dantes crucificados
Por Demônios
Nunca dantes exorcisados
Por portais
Nunca devassados
Dantes8) NUVEM DE ME(N)TAL (08/01/1997)
Acima
Da minha cabeça
Nuvem de metal
Carregada
De relatividade
Entrega
Um raio
De revolução
Para
Obscena,
A minha
Musa.
9) O ANÃO AMPLIDÃO
Como humana ampulheta
Passeia o anão atleta
Pela areia da praia
Na ampulheta
A areia discreta
Viaja através
Do vértice
Estreito
Para marcar
A passagem
Do tempo
Para a morte
Quando o anão
Se exercita
Sem saber
Incita a inveja
Converte-se
Em tema
De todas
As conversas
Pergunta
Que ronda
Pela rodas
Da inveja:
Vejam
Como pode caber
Tanta energia
Onde pouco osso
Pouco músculo
não caberia ?
só pode ser
um robô
a inveja
cega a razão
ninguém percebe
que, se fosse robô
seria alto, bonito,
mas sem espírito
o anão
tem pouco
e corpo torto
mas espírito
enorme
ereto
quanto mais
o tempo passa
por seu corpo
pequenino
mais se expande
seu espírito
é por isso
que o anão
é ampulheta viva
é vivo exemplo
de ampulheta
invertida10) O ESPÍRITO ESPERTO (05/01/1998)
Mulher é superapaixonada pelo marido. Ambos são muito ricos. O marido de câncer. A mulher fica em estado de choque por algum tempo. Quando está restabelecendo, percebe que está se apaixonando pelo psicólogo que cuida dela. O tenta seduzi-la para botar a mão em sua fortuna. Ela não gosta do que está sentindo com relação ao psicólogo. Gasta parte de seu dinheiro e jóias para construir uma estátua de ouro do falecido. Faz um solene juramento para ele. Se for para a cama com outro homem, ante de ir derreterá a estátua e derramará o ouro no ma, pois não será mais digna de sua confiança e de seu amor. Um arqueólogo, amigo da família, decide entrar no corrida do ouro. Tenta convencer a viúva a doar a estátua para o museu que administra. O psicólogo sabe do juramento, mas o arqueólogo não. O arqueólogo conquista o amor da viúva, ao evitar que o psicólogo roube a estátua. A milionária tenta resistir, tenta saciar seus desejos com a estátua, mas não consegue. Na noite em que vai para a cama com o arqueólogo, ela revela o seu segredo.Começa o conflito interior: cumprir o juramento fazendo a estátua desaparecer, ou mantê-la intacta, cedendo à insistência do arqueólogo, que não se interessa pelo valor material, e sim pelo histórico. Mulher jura ao arqueólogo que vai fazer a doação, porém derrete a estátua. Ao acabar de jogar ouro no mar, o arqueólogo sai de seu esconderijo, irado, e a abandona. Mulher chora, pois perdeu os dois amores de sua vida e, também, parte de sua fortuna. Procura um médium espírita, para falar com seu marido. Quer saber se ele aceita que ela se case de novo. Médium, fingindo que o falecido fala através dele, diz a ela que só pode casar outra vez com um condição: vender a mansão e doar e doar todo o dinheiro para a ONG filantrópica do médium. Viúva acredita e segue fielmente as ordens do espírito de porco. O falecido passa a atormentar a o charlatão todas as noites, a noite inteira. Diz que só o deixará em paz se ele se casar com ela e, também, fizer um testamento para que ela herde todo o dinheiro que ele lhe roubou. Caso o espírita faça qualquer coisa, seja lá o que for, que a prejudique tal como matá-la ou alterar o testamento, o falecido voltará atacar. O médium diz a ela para dar a ela para dar mais dinheiro para a instituição, pois o falecido ainda não está convencido da sua sinceridade. Na mesma noite, o falecido, o falecido o visita e diz que esta é a sua última chance, ou o charlatão cumpre o que lhe foi ordenado, ou o falecido o fará se suicidar. O médium, julgando-se todo-poderoso, se recusa. O espírito hipnotiza o espúrio espírita hipócrita e o faz inalar uma overdose de incensos. O charlatão amanhece morto. Concentrando suas energias, o espírito de amor consegue encarnar no corpo do espírito de porco. Vai ver sua viúva. Ela: Meu amor, como eu gostaria de estar aí, no céu, você. Ele: Meu amor, vou fazer melhor. Vou renascer através de você. Espírito e sua esposa fazem amor, alucinadamente.
11) O LIVRO DA LIBIDO (1986)
Vem cá meu livrinho,
Senta aqui comigo
Me ensina me explica
Como é que
Eu fico rica
Vem cá meu livrinho,
Agora estamos sozinhos
Me ensina os artifícios
Os segredos as malícias
Pra enriquecer sem esforço
Me diz que eu te ouço
Fala, mas baixo
Fala assim só pra mim
Me ensina os cambalachos
Vem cá meu livrinho,
Senta aqui comigo
Me ensina me explica
Como é que
Eu fico rica
Vem cá meu livrinho,
Agora estamos sozinhos
Me ensina o criem perfeito
Eu aprendo eu faço direito
Eu faço até faculdade
Maior que as dificuldades
É minha louca vontade
De nadar na grana da cidade
12) O OVO DE OVÍDIO
O ovo de Ovídio
Ouve o vídeo
De Orfeu que sofreu
Com os Elfos de Morfeu
O ovo de Ovídio
E Orfeu sofreu
Ao ouvir o vídeo
Com os Elfos de Morfeu.
Ouve o vídeo
Dos Elfos de Morfeu
Orfeu e sofreu
Com o ovo de Ovídio
13) O QUE É ISSO ? (04/11/1986)
Não é ave, não é avião.
Não é o Super-Homem.
Não é Confúcio, não é confissão.
Não é hecatombe.
Não é compra, não é compromisso.
Não é a pena isso.
Isso apenas é.14) OSTRAS OUTRAS (16/02/1987)
Me vejo em meio
A uma população
De ostras humanas.
15) PÂNTANO DO ESPANTO (26/02/1988)
Nos espantamos
Nossos pântanos
São sombrios
Sons e brilhos
Forma banidos
Pelos bandidos
Decerto
Do árido
Deserto
Os ávidos
Vieram
É facílimo
Os fascínios
Voaram
Para longe
Da mente
Onde moram
A salvo
E alvos
Para sempre
16) POEMA DESPREZADO
Minha donzela
Por que rasgas
Papel tão precioso ?
Por que esmagas
Com tanto asco e nojo,
Poema de amor
Tão belo ?
Pois um amo um pintor
Que me ama
Numa aquarela.
Que me afaga
Com cores ardentes.
Ele faz eu me ver
Como uma Cinderela.
Ele não rima
Meu nome belo
Com tagarela.
Ele sai e o deixa
Sozinho na sala.
El faz sua mala,
Troca seu amor
Por ódio
Vai até ela
E lhe fala
Vou matar-te
Vou jogar-te
Na vala
Dos versos
Brancos de
Tão podres
Ela gargalha
Ele a pega
Nos braços
A joga
Pela janela
Pobre moça
Tão bela...
Ela voa
Para longe
Bem longe
Livre, enfim,
Dos versos
Dele, cegos17) POEMA DOS TRÊS PLANOS (05/01/1197)
1º PLANO:
Roda gigante...
Tábua oscilante...
Plano inclinado escorregadio...
Ponte de quadrados vazados...
Cubos amontoados
Para passar através...
Estacas com teias
De arame intercaladas...
2º PLANO:
Quase esqueço
E não escrevo
No quadro.
Veia da terra
Aberta na pedra
Se perde no horizonte.
Dois casebres
De olhos azuis.
Árvores de penas
Vivem nas margens
Dos riscos.
3º PLANO:
Três montanhas.
Outra calva e brisa,
Outra de perfil
E bigode viril,
Outra com peruca
Louca de pirilampos.
18) POLIPOÉTICA (10/05/1986)
No porto
navios de afastando
versos brancos acenando
no pescoço
da Damas da Araras
colar de rimas raras
na guerra
com a paz dos estóicos
decassílabos heróicos
na fila de espera
do INAMPS, franzinos
alexandrinos
nos castelos assombrados
aprendem a ser bruxa
rimas esdrúxulas
nos sobrados
comem nas maiores vasilhas
as menores redondilhas
na porta da igreja
imploram por poucos cobres
rimas pobres
no Palácio da Inveja
não cessam intrigas
entre rimas ricas
a Bíblia já dizia:
no Paraíso das Alturas
só entram rima pura
na praça vazia
rimas femininas
amam rimas masculinas
na pele
abrem feridas profundas
rimas pontiagudas
nas orelhas
a comédia encontra entraves
nas rimas graves
ônibus parados
fazem zorras infernais
nas rimais finais
em quartos apertados
dormem apenas
rimas internas
nos planos projetados
a armadura completa
da poesia concreta19) PRAZER DE MATAR (10/07/1985)
Toda a cidade corre perigo quando quem,
acima de tudo, ama a vida,
descobre o indescritível prazer de matar.
20) PROCESSO DE ELIMINAÇÃO DA TUA PRESENÇA EM MIM (27/01/1987)
Durante a noite
Lentamente
Tua carne e dissolve
No ácido da amnésia.
Entretanto
Ainda te espero
atento a teus passos
De morta-viva.
Introduzo um pinça
Em ouvido
E retiro
O fino fio
Da tu voz.
O Grande
Pássaro da Aurora
Já espalha
suas penas róseas
Pela minha memória,
Mas tua visão
Já se apagou
Dos meus olhos.21) Quartetos
O Puma
Pouco ocupa
Da riqueza
Móvel.
O Puma
Pouca ofusca
A pobreza
Imóvel.
22) QUERIA SER UM PERSONAGEM ÁRABE
Queria ser das mil e uma noites árabes
Um personagem árabe
Com todo seu esplendor e encanto
Conhecer os quatros cantos
Das mil e uma noites árabes
Possuir o mais belo príncipe árabe
Possuir a beleza e poesia
Das mil e uma noites árabes
Ao invés de ser
Um mísero ingrediente árabe
De um reles pão-árabe
Cujo destino
É o intestino
De um clandestino
Americano
Numa história apócrifa
Das mil e uma noites árabes
23) QUERO QUE MINHA ARTE
Quero que minha arte
seja bela o bastante,
para todo o mundo amar.
Mas, ao mesmo tempo,
Quero que minha arte
seja feia o bastante,
para ninguém no mundo imitar.
24) RAPSÓDIA (04/11/1986)
1) ESCÂNDALO
Para os vândalos
O escândalo
É uma forma de amor
Nos seus ritos
Cada canção é um grito
De rubra cor
2) AMOR
A cor do amor é imprecisa
Sua mansão é uma canção rosada
Sua forma segue normas inusitadas
Seu grito gera conflitos em virgens narcisas
Seu sândalo é o escândalo
3) CANÇÃO
Numa canção posso ser Deus
Posso fazer da Terra um Paraíso
Posso pintar o Mundo da verde cor
Posso habitar nos filhos meus
Posso por um verde sorriso
De fresco odor
Em seus lábios e em seus dentes
Posso por um verde grito
Em suas gargantas
Posso tirar de suas mentes
E de seus corações os conflitos
O verde Amor de agiganta
Posso fazê-los habitar em vedes prados
Posso fazê-los segundo minha perfeita forma
E quando
Deles estiver cansado
À Terra devolver o que lhe pertence
Minha prole, ao ver-se nua
Se extermina em
grande hecatombe
De escândalo
4) COR
Se no meio da rua grito
Logos todos pra mim olhando estão
Se o céu fito
Logo todos pro firmamento
Voltam sua atenção
Se um quadro pinto
Logos todos questionam
A cor que vou usar
Se uma pedra esculpo
Logos todos perguntam
Que forma vou lhe dar
Se com alguém luto
Logos todos apostam
Que quem vai ganhar
Se assobio uma canção
Logos todos param
Para escutar
Se estendo a mão
Logos todos nela
Uma esmola
Vão jogar
Se considero
A inflação
Um escândalo
Logos todos comigo
Vão concordar
Se de costas ando
Logos todos
No hospício
Vão querer
Me trancafiar
Se faço amor
Na meio da rua
Logos todos
Plenos de inveja
Chamam a polícia
Pra me delatar
Porém se dou
Dinheiro gordo
Logos todos
Ficam mudos
Com ninguém
Vão comentar
Grana mole
Em cabeça dura
Tão tenta
Que não restará
Nem pensamento
Só amnésia
5) GRITO
Amor-Escândalo
É a melhor forma
De dar um grito
É silenciosa canção
É cor berrante e silente
6) FORMA
Forma, informa
Amor, clamor
Grito, agito
Canção, escanção
Cor, calor
Escândalo, cântaro
25) RELIGIÃO
Conectar
Com néctar.
Unir
Não pela seita
Sim pela ceia.
26) ROMPER O TÊNUE LIMITE (28/09/1986)
Romper o tênue limite
Entre a pura
Transcendência
Do ser
E a dura
Decadência
Do parecer
Ferver todo
esse acinte
na confusa
incandescência
da indolente criatura
de inocente figura
e elevada estatura
que é lavada
no riacho de Hipólita
e seu rancho
de hipócritas
com seu ranço
do monólito fatídico
de acre acrílico
decifrar os insondáveis
desígnios do coração
para os inalienáveis
e malignos mistérios
da oração
que preserva intactos
seus ministérios
cujo voto de Minerva
enerva até os pactos
dos cactos báquicos
com as elásticas
e lascivas fibras
das cativas firmas
fundadas pelas fricativas
e fundas redondilhas
de rodilhas
morrer de mal súbito
remar em dorsal decúbito
num barco dourado de júbillo
avariado em pleno púlpito
avaliado com pesos múltiplos
manuseados pelos mesmos pupilos
acusados de serem túrgidos
na presença dos raios fúlgidos
fugidos dos hinos estúpidos
dos lacaios úmidos
lacrados em balaios lúbricos
encarregados do logro lúdico,
jogo do súdito
do jogral lúcido
sujo perante o público
pela escolta da escolha do último
dos mói-cana-da-índia que os barbitúricos
bárbaros ceifaram de modo único
sua rubra é rúbrica
seu muso é músico
seu tenor tem temor e teor telúrico
e canta num canto o Mercúrio pudico
enquanto este prossegue litúrgico
com o processo do possesso cirúrgico
confesso cupido túmido
27) ROSALINA
Rosalina
Às vezes é delicada
Como as flores
De pano
Que ela faz.
Rosalina
Às vezes
Não é flor
Que se cheire
Nem que
Se coloque
Na lapela
Na capela
Rosalina
É remorso
E desengano
É estátua
Feita de espinhos
Rosalina
É rosa-overdose
Viciou-se
No viçoso aroma
De si mesma
28) SEDOSA NEBLINA (20/01/1998)
Neblina de seda
Bélica beleza
Na cabeça
De Ismênia
Asas de noiva
Fértil farsa
Na casa
Da ingênua
Papoulas de sangue
Austero caos
No claustro
Da sereia
29) SELVAGENS SENHORITAS
Selvagens senhoritas
Fáceis conquistas
Dóceis escravas
Maliciosas senhoras
Simples e discretas
Sem horas
sem idéias secretas
Com concretas palavras
30) SONHO DOS MEUS VERSOS (27/02/1986)
A Olavo Bilac
O som das castanholas
São mil corações em fúria
Ágeis em mão em espanholas
Chamam-me para a luxúria
São mil corações em fúria
ainda ouço em meu peito
Chamam-me para a luxúria
Teus olhos negros e suspeitos
Ainda ouço em meu peito
Percorre todo o meu corpo
Teus olhos negros e suspeitos
Fazem o mesmo em tempo pouco
Percorre todo o meu corpo
O prazer que nele injetas
Fazem o mesmo em tempo pouco
O veneno de indígenas setas
O prazer que nele injetas
Meu ser envolve e entorpece
O veneno de indígenas setas
A mesma coisa acontece
Meu ser envolve e entorpece
E empalidece e revolve
A mesma coisa acontece
Com projétil de um revólver
E empalidece e revolve
E devolve à vida
Com projétil de um revólver
Não acontece coisa parecida
E devolve à vida
Mais forte e digno
Não acontece coisa parecida
Com pessoas de outros signos
Mais forte e digno
De te possuir
Com pessoas de outros signos
Não posso ir
De te possuir
É chegada a hora
Não posso ir
Antes do raiar da aurora
É chegada a hora
Com amor fazemos o truque perfeito
Antes do raiar da aurora
De dois corpos um só é feito
Com amor fazemos o truque perfeito
Estreito laço nos une
De dois corpos um só é feito
Alumiados pelo lunar lume
Estreito laço nos une
Laço estreito filigranado
Alumiados pelo lunar lume
Auxiliado por seres alados
Laço estreito filigranado
Lutando embora
Auxiliado por seres alados
Não escapa das garras da Aurora
Lutando embora
O laço é desatado
Não escapa das garras da Aurora
De fio em fio é desfiado
Lutando embora
O laço é desatado
Não escapa das garras da Aurora
De fio em fio é desfiado
O laço é desatado
Falece a força tão imune
De fio em fio é desfiado
O que nos une
Falece a força tão imune
Torna-se duo o antes uno
O que nos une
É destruído por Saturno
Torna-se duo o antes uno
Sem ti me despedaço
É destruído por Saturno
O sonho de nossos astros
Sem ti me despedaço
O som das castanholas
O sonho de nossos astros
É ágil em mãos espanholas
31) SURREAL (11/01/1998)
Computador fuma
E se esfuma
É dono
De um banco
De dados viciados
Seu operador
Foi operado
Com um dado
No peito.32) TE AFOGUEI EM MEUS DESEJOS (12/08/1987)
Te afoguei
No Oceano
Do meu Desejo
Teu cadáver ainda quente
Flutua entre geleiras
Ouço tua voz
Entre as Estrelas
Desde o dia
Em que te deixei
Falando sozinho
E fui fazer
Meu mapa astral







